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13 de novembro de 2009

Heranças medieváis na Igreja

A Idade Média acabou há muito tempo. Isto é o que pensamos, o que dizemos. Quando pensamos em Idade Média imaginamos um mundo escuro, cheio de pessoas ignorantes, supersticiosas, um mundo onde as leis eram ditadas pela Igreja Católica, e o mundo era "cristão", porque o mundo era Europa.
Em muitos aspectos a Idade Média acabou de verdade. Mas dentro das nossas igrejas insistimos em conservar muitas coisas que desde esta época aprisionam o ser humano, fazendo-o ser, literalmente, uma "ovelha", na mão do seu pastor. Algumas são tão ridículas que se as pessoas parassem para pensar um pouco se revoltariam. Mas geralmente todo mundo se submete. Afinal, é da vontade de Deus que as coisas sejam desta maneira. E aqui é onde começam as heranças medieváis:
1. Qualquer regra de conduta é legitimada na vontade de Deus. Isto era feito pela Igreja Católica na Idade Média, e continua sendo feito por cada pastor em cada igreja. Eu tenho que ler a Bíblia porque é vontade de Deus. Eu não posso ir dançar porque Deus não gosta disso. Assim, além das pessoas ser alienadas e amedrontadas (contra a vontade de Deus, o que podemos fazer?), elas nunca vão a aprender a ser donas dos seus próprios atos, de afrontar as consequências de suas próprias escolhas. Elas vão fazer-não fazer por medo do castigo "divino".
2. A deificação do sacerdote-pastor ou o que seja. Agora são até bispos primazes, apóstolos, títulos que demonstram que o ser humano não saiu da coleira. A maioria de igrejas tem o seu pastor ou líder no patamar dos santos. Seja pelo impedimento de chamá-lo pelo nome, seja pela adoração descarada, as massas estão sendo levadas, ou melhor, já estão acostumadas, a ver no pastor a representação de Deus. Ele é o "servo de Deus", o que lhe dá direito a ser infalível. Sua palavra é lei (mesmo em algumas igrejas batistas, pelo que deveriam ser democráticas, quem faz o que quer é o pastor... e se alguém não gostar pode mesmo é ir embora!!), sua pregação revelação divina, não é possível questioná-lo... afinal, ele é um santo, e sabe mais do que a gente, então o que ele diz está certo. E assim, dia após dia muitas abobrinhas são lançadas sobre os fiéis (nem todos os pastores são ruins, mas há uns que misericórdia! E lastimavelmente eu tenho conhecido muitos dos últimos...). Ahhh, o povo da igreja, somos fiéis, não de Deus, mas do pastor. Olha só, e somos ensinados a obedecer, abaixar a cabeça como boas ovelhinhas, porque, você sabe, Deus não gosta de rebelião...
3. A demonização do outro. Isto vem mesmo desde antes da Idade Média, vem desde o regime sacerdotal pós-exílico, que se abrogou o direito de ser dono da verdade absoluta. Se eu estou certo, o outro está errado, é ou não é? Pois é, e até hoje quem não comparte o que eu penso, quem não aceita a minha verdade, é o pagão, o errado, o filho do diabo... aquele que me contamina se fico por perto dele. E pensar que esta mentalidade legitimou as massacres da colonização, que os povos nativos destas terras foram assassinados em nome de uma verdade absoluta revelada por um "Deus absoluto"... e o cristianismo, desde a sua origem, se fez com sangue! Hoje não matamos, mas desprezamos, discriminamos, olhamos com cara de "tadinho dele vai pro inferno", rejeitamos e às vezes até humilhamos. E dizemos ainda por cima que Cristo amou o mundo... só que, para nós, esse mundo somos nós mesmos! Que lindo, Deus nos ama, o resto que se ferre, eles não acreditam na minha verdade, merecem ser condenados! E depois colocamos a culpa na maldade do mundo pelas injustiças, guerras e ódios, todos fruto de um preconceito que não ve o outro como um igual, mas como um objeto: de conquista (missionária: o outro é objeto de conquista porque deve 'ser convertido', ele não interessa de outro jeito, só esse), de compaixão pela sua "tolice", de desprezo. E ainda estamos dispostos, mesmo disfarçadamente, a queimar em fogueiras quem for diferente de nós.
4. A depreciação da mulher. Depois de 2000 anos, depois da chegada da modernidade, dos direitos, da igualdade, ainda temos o descaro de tratar a mulher como prato de segunda mão. Ela pode, sim, trabalhar na igreja. Mas olha, só pode ser missionária... educadora religiosa... dar aula na EBD... ahhh, e a mulher do pastor é o substituto voluntário (ou forçado?) do pastor. Ela tem que estar onde se precise, não pode deixar de liderar a MCA, os jovens, as crianças, a EBD... ahhh! mas se a mulher ousar pensar em chegar a ser pastora, ou algum outro título semelhante, ai va a igreja medieval, com a Bíblia em mão, para dizer que "Deus não gosta disso". Claro, Deus não gosta se eu não gosto. E o homem é ciumento com seus títulos. Sinceramente eu não sei se poderia ser pastora, se aguentaria tudo o que esse cargo significa. Mas negar à mulher o direito de fazer o que ela quer fazer é a coisa mais retrógrada do mundo.
Além dos cargos dentro da igreja, a mulher ainda é banida, o seu corpo ainda não foi aceito pela sociedade. O curioso é que a negação do corpo da mulher foi acentuado, sim, desde o início da tradição, com o safado de Tertuliano colocando a culpa em nós pelo pecado, e com Agostinho, que para mim não tinha se resolvido totalmente... mas de forma teórica, porque se podem ver gravuras onde os vestidos medievais não tinham nada de discreto, pelo menos em questão de decotes... pero a era vitoriana tampou a mulher de cabeça a pés. O protestantismo tirou de nós uma das poucas coisas que tinhamos.
Engraçado, numa sociedade como a brasileira, onde o que mais se vê são corpos de mulheres nuas ou seminuas... mas elas não são mulheres, elas são objetos, coisas que despertam o desejo masculino, a cobiça masculina, mas nunca o respeito masculino. E por isso, as castigadas somos nós. Isto é, o cara não consegue olhar uma mulher sem respeitar sua integridade, sem controlar sua lascívia, e por isso nós devemos nos cobrir até os olhos. Criticamos a burka mas não aceitamos blusas de alcinha. Claro, os ombros são atraentes, e os homens podem ser seduzidos... fala sério! O homem que aprenda a controlar seu corpo e sua mente, que eu tenho o direito de me vestir como melhor me sinta! (porém, é necessário atender aos limites do vulgar... porque uma coisa é liberdade e outra libertinagem, e andar por ai peladona porque me sinto a vontade também já não da). Quem pensou, num calor de 40 graus, usar camisa de manga porque a alcinha "é do diabo"?
5. Sexo é tabu. Ainda. O corpo é algo que deve ser ocultado, esquecido, ele é mau, nos leva ao pecado... devemos procurar ser anjinhos, escapar da carnalidade deste corpo maldito... corpo que, por incrível que pareça, Deus fez! Deus fez a gente com sexo, Deus fez as nossas formas, as nossas características, o que achamos atraente no outro, o que vemos e o que ocultamos. Se Deus nos fez, porque estamos seguindo ainda Platão, e sua demonização do corpo? (O corpo é o cárcere da alma, ele é mau, a alma boa). Eu prefiro pensar que se Deus nos fez, e como nos fez, foi por algo. Devemos tirar o corpo da sua punição imerecida! Devemos cuidar de nós mesmos, amar-nos, e sobretudo aceitar como somos, homens e mulheres de carne, sujeitos à materia. Se não, Deus teria feito um monte de espectros para povoar o mundo, sem corpo... se ele nos fez com corpo, não é para negá-lo!
6. O conceito de pecado. Este foi a ferramenta mais eficaz para manipulação de massas na Idade Média, porque o sacerdote era o único caminho para obter o perdão dos pecados. Agora dizemos que vivemos sob a graça. Mas que graça é essa que exclui as pessoas da comunhão porque estão "em pecado", um pecado muitas vezes ditado pela cabeça do líder? Já ouvi falar que ir ao cinema era pecado... pera aí, o pecado prescribe? Se era tem que ser agora, ou então nunca foi pecado. Essa questão de pecado ainda não deixou de ser ferramenta de manipulação. Cada um diz que isto ou aquilo é pecado, e as pessoas são ensinadas a viver com medo do próximo respiro, porque podem "pecar", e Deus fica chateado com elas. Eu não sei mais se Deus se importa tanto com as coias que dizem que é pecado fazer. Se for pecado dançar, Deus foi muito injusto comigo me colocando para nascer num pais que se mexe ao ritmo da cumbia, da salsa, do merengue e do vallenato. A dança está no meu sangue, e prefiro "pecar" feliz a reprimir meus passos (que também não são lá a grande coisa) por um pecado que, pelo que tenho percebido, não é mais que herança cultural. Assim como as roupas, herdamos dos colonizadores estadounidenses (no caso dos batistas, pelo menos dos que conheço) uma demonização da cultura na qual eles deviam ser os estranhos, mas da qual fomos extirpados como sem perceber. E assim, dançar é ruim, se vestir conforme ao clima tropical é ruim, dependendo do credo beber é ruim... e se volta à alienação, que não ensina às pessoas que se bebem muito podem estragar o corpo, ou se fumarem demais vão ter câncer de pulmão... é mais fácil dizer que é pecado, que ai o medo da condenação eterna as vai mater longe de tudo o que se queira (o que aqueles, que sabem um pouco mais, querem).
7. A doutrinação automática dos "crentes". Já na Idade Média as pessoas eram ensinadas a aprender sem questionar. O que eles aprendiam, as doutrinas, era revelação de Deus (uma revelaçao manipulada, disfarce de poder político e econômico), e por isso mesmo não era para pensar, era para aceitar. E nas nossas igrejas estamos assim, ainda enfiando "conhecimentos" nas cabeças das ovelhas (tadinhas, muitas vezes "ovelhas" mesmo...), e elas aceitam sem questionar, obedecem sem protestar, acreditam sem pensar. E o que nós sabemos, não, eles não podem saber, não estão preparados. E seguem assim, num mundo de fantasia, sem indagar pelo Deus da vida delas, aceitando a versão de Deus que cada pastor dá, que cada denominação ou liderança dá. Porque, isso sim, cada igreja tem sua própria versão de "Deus". Muitas coisas que se poderiam ensinar, coisas simples, como a formação da Bíblia, como a autoria e a originalidade dos textos sagrados, são ocultados, como se saber que muito provavelmente Jonas nunca foi comido por peixe nenhum abalasse a fé em Deus. Ou, talvez seja por isso mesmo, porque o "Deus" que é ensinado não bate com um Deus recontado em diversas histórias, construido em diversas tradições. O "Deus" que aprendemos é imutável, inefável, imóvel. E o Deus dos hebreus era tudo menos isso. E o nosso Deus, nem temos um, só seguimos o Deus dos outros, o Deus que nos contaram como era. E ai vamos, igreja medieval em um mundo pós-moderno, imperfeito, que cada dia está pior. E ficamos brigando pela nossa verdade, obrigando os outros a nos ouvir (quantas vezes passei nas praças onde sujeitos pregam ou cantam, com todo o fôlego, sem pensar que talvez isso, em lugar de ser testemunho do amor de Deus, é fastídio para quem passa ou vive, trabalha ou fica ali). E distorcemos a verdade do evangelho, a simplicidade de Jesus, em meio de um monte de normas, dogmas (e se você não tomar a Santa Ceia... não vai ficar em comunhão com Deus nem com os outros), regras, proibições.

E depois nos queixamos pelo sucesso obtido pelas "igrejas" manipuladoras que oferecem um Deus-boneco (ele TEM que fazer o que eu quero). Se não ensinamos as pessoas a pensar, a questionar o que se lhes fala, tudo que tenha o título de Deus é sagrado!
Jesus nos disse para amar ao próximo como a nós mesmos. Ele não especificou a religião, cor, sexo ou idade desse próximo. Só disse para amar. E esse amor não é aquele da boca para fora, tão comum e desgastado pelos "crentes" que saem repartindo "amor" por ai, falando a todo mundo que "Deus te ama". Sim, isso é verdade. Mas também é verdade o que disse Tiago, que se digo ao meu irmão que Deus o ama, mas não faço nada para suprir sua necessidade, para mostrar mesmo na pele o amor de Deus, não estou fazendo nada. Falar é, afinal, muito fácil. Cadê as ações? Cadê o compromisso com um Deus que morreu para dar vida ao mundo? Cada vez mais estamos mandando o mundo à morte, omitindo nossa responsabilidade na construção de um futuro, de um mundo melhor. Afinal, este mundo é máu. O homem é uma massa danada, condenado desde o início. Afinal, nosso lugar não é aqui, é lá no céu. Por isso estamos como estamos, porque se deixassemos de olhar tanto para o céu e olhassemos mesmo para quem está do meu lado, enxergariamos as verdadeiras dores, as verdadeiras injustiças, e o sangue ferveria nas veias, e nos levantariamos para fazer alguma coisa. Mas como este mundo não importa...
E ficamos presos, cativos na Idade Média, fechando os olhos e os ouvidos, os nossos e os dos outros, a fim de que a tradição seja continuada, a fim de que a hierarquia seja mantida. A fim de que a massa continue dominada, mansas ovelhinhas no rebanho do "pastor". Ai de nós, que temos tão grande responsabilidade pela ignorância e desespero dos outros!
P.S. Muitos pastores são servos sinceros de Deus. Muitos são ignorantes sinceros. Mas, lastimavelmente, a grande maioria são sinceramente safados, sinceramente políticos, sinceramente manipuladores (talvez minha visão seja muito sinistra, mas tenho experimentado isso na pele...). Queira Deus que surjam mais pessoas que enxerguem o mundo de verdade, o exemplo real que Jesus nos deu, e sigamos verdadeiramente os passos daquele que denunciou as injustiças, enfrentou aqueles que tinham o poder, e que morreu pela verdade!

6 de outubro de 2009

A Colômbia que ninguém conhece

Como colombiana que mora em outro pais (e tenho morado em dois até o momento) tenho ouvido falar muito do meu pais. Não no jornal, é claro. Não sobre como é belo, ou sobre o que está acontecendo atualmente nele. Alias, ninguém fala da minha Colômbia. Falam de clichés, zoam sobre o sofrimento dos colombianos, riem às nossas custas. Alguns nem sabem onde a Colômbia fica (já me perguntaram se fica perto do Marrocos). Outros nem sabem quem é o presidente, ou qual e a capital do pais. Geralmente falam da Colômbia como uma grande plantação de maconha, de coca e sei lá o que mais. Falam dos colombianos como se todos fossemos membros da guerrilha, ou gostássemos muito das FARC. Acham que vivemos drogados, ou traficando drogas. E ninguém sabe. Ninguém nunca foi pelo menos para dizer que sabe como são as coisas. Ninguém viveu nunca na pele a dor que os colombianos carregamos no coração.
Dor pela pátria. Dor pelos compatriotas que não podem morar tranquilos em suas terras, que têm que abandonar tudo porque a guerrilha ou os paramilitares os obrigaram. Dor pelas famílias massacradas, pelos filhos sem pais, pela violência que tinge de vermelho a nossa terra preta, tão fértil e bela.

É muito fácil debochar quando não se conhece de perto a situação real. É fácil falar mal, e fácil rir e simplificar tudo a uma plantação de drogas. Mas quando se viveu uma grande parte da vida num pais que foi o berço, quando depois de muito tempo fora, com a saudade enorme que mora na alma, crescendo a cada dia, se ouve ainda falar besteira da própria nação, cresce a ira. Cresce a vontade de mandar todo mundo calar a boca. Quem dera eles fossem, conhecessem de verdade o pais que tanto denigram, olhassem de perto a beleza e a realidade da Colômbia.

Colômbia é um pais de lutadores. Além da desigualdade típica de um pais latino americano, se convive com a violência desde cedo. No jornal, na televisão. Mas não é só isso que existe em Colômbia. Em nós prevalece sempre a esperança. Esperança de que um dia a terra descanse. Que um dia o sangue deixe de ser espalhado. Que um dia a justiça chegue, as mágoas sarem, a vida prevaleça e a paz reine.

Colômbia e um pais belo. Bogotá é uma cidade que cada dia mais melhora, cresce, se desenvolve. A cidade mundial do Livro. O campo é fértil, as diferenças climáticas permitem o cultivo dos mais variados tipos de verduras, frutas, legumes. Viajando três horas desde Bogotá se passa do frio da cidade ao calor do interior, descendo a montanha. A paisagem muda, o gado é diferente, as vaquinhas brancas com preto dão lugar aos imponentes cebú. E o mar. E as ilhas: As ilhas do Rosario, a bela San Andrés. Com um mar perfeitamente azul, areia completamente branca. E peixes. Corais enormes, caranguejos. Providência e Santa Catalina com sua Ponte flutuante, colorida como a alma dos moradores do lugar. Como a alma dos colombianos.

Em Colômbia já vi terra preta, e já vi terra vermelha como o sangue. Já conheci a terra do café, Quindío, e visitei a planície. Já passei aventuras inacreditáveis, andei de cavalo, nadei no rio. Em Bogotá fui no Museu das Crianças (que até hoje não vi igual em nenhuma outra parte), conheci Maloka (outro museu único e divertido). Visitei a cidade velha (La Candelaria), com suas ruas estreitas e suas casas coloniais, cheias de histórias de fantasmas. Cheias de história pátria. Estudei de frente para o parque de atracções mecânicas. Fui nas livrarias. Quase passei tardes inteiras na biblioteca. Em Colômbia a cultura é importante. Dai saiu Fernando Botero, nela nasceu o grande Gabriel García Márquez. Foi em Colômbia onde se inventou a cumbia, onde nasceu o vallenato. E surgiu Rafael Escalona. E Alejandro Durán. Nela também nasceu Shakira (se bem que não gosto particularmente dela), e se formou Juanes.

A minha pátria tem problemas, como todos os outros. A violência mancha o que temos de belo, esconde o que temos de bom. E o mundo não vê o que realmente importa. Nestes anos todos morando fora do meu pais, só tenho ouvido falar dele no jornal em casos de violência, de tráfico de drogas. Mas ninguém fala das coisas boas que se fazem na Colômbia. Ninguém fala do Dia sem Carro, do Dia das Bicicletas. Ninguém fala do Natal iluminado de Bogotá, das bibliotecas que se construem, do Transmilênio. Ninguém sabe das águas termais que ficam perto da cidade, das cachoeiras, dos parques, represas e reservas naturais. Não se conhece a alegria dos colombianos, a sua vontade de sair adiante, de melhorar. O seu respeito por quem nos visita (diferentemente a... deixo para vocês refletir), a sua vontade de agradar. Sequer se fala dos que sofrem, dos camponeses que ficaram sem lar, dos sequestrados que há mais de dez anos estão longe de suas famílias, penando pela maldade de um grupo armado. Como se só Ingrid Betancourt tivesse sido sequestrada.

A Colômbia é mais que drogas. Muito mais do que violência, guerrilha e narcotráfico. Alias, a guerrilha e os narcotraficantes não representam a Colômbia. Eles não têm nada a ver com quem sofre. (Bem, alguns militam forçados, outros não têm muitas opções. Eles são vítimas, mas viram vitimários). Colômbia não é representada pelas quatro letras das FARC, nem pela droga que e consumida em tantos outros países. Os mesmos países que debocham de nós (haja ironia nesta vida). Somos mais do que um cliché. Somos mais do que uma piada.

E quem ri, não sabe. Quem faz piada ignora. E como se diz na Colômbia, a ignorância e atrevida. Que vergonha. É vergonhoso falar do que não se sabe, nesses casos geralmente só se falam abobrinhas. Que a Colômbia que ninguém conhece possa, algum dia, descansar em paz. E que quem aponta o dedo contra ela, contra nós, veja a si mesmo, e cale.