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29 de fevereiro de 2012

Pensamentos Avulsos

Estou lendo a história do Terceiro Reich, num livro muito interessante chamado "Ascensão e Queda do Terceiro Reich". É antigo, mas muito bom. Lendo esta triste história, não deixo de admirar a Hitler. Não que concorde com ele, claro, ou que ache bom o que ele fez. Mas acho a forma como ele fez tudo simplesmente genial. Se ele tivesse usado sua inteligência e sua determinação para algo bom, ia ser um grande homem. Lástima que tivesse sido um fanático, obcecado com a grandeza perdida da Alemanha depois de ser sujeita ao Tratado de Versalhes, e cegado pelo seu ódio pelos judeus e os poloneses, ódio que compartilhava, aliás, com a maioria dos alemães da sua época. Mas a forma como descifrava as pessoas, de forma que podia lhes oferecer o que elas queriam (não que cumprisse com sua palavra, mas isso as pessoas descobriam tarde demais), como planejava cuidadosamente seus passos, enfim, como fazia tudo, era genial. 
Lendo essa história, percebo que o ser humano é sempre o mesmo. Hitler era um nacionalista fanático, e pode-se dizer que era sincero no que fazia. Ele realmente acreditava que o que estava fazendo era certo. Hoje em dia, a auto-proclamada grande potência mundial, EUA, também está cheia de nacionalistas fanáticos, que acreditam que invadir os países do oriente e matar "terroristas" está certo, assim como torturar presos políticos em Guantánamo é normal. Para Hitler também era, e muitos dos deputados e líderes de outros partidos políticos pereceram dentro de cárceres e campos de concentração, junto com os judeus, ciganos e homossexuais presos pelo ditador louco. Eu acho incrível como as coisas se repetem. Em 1933, Hitler, chanceler, fez o presidente Hindenburg assinar um decreto "para o bem dos cidadãos", que autorizava Hitler a invadir casas, interceptar ligações telefônicas e telegráficas de qualquer pessoa, assim como prender pessoas sem um mandato ou provas. Tudo em nome do bem do povo, ameaçados por uma imaginária quadrilha comunista, que, segundo ele, foi a responsável pelo incêndio do edifício do parlamento. Parece familiar? Eu me lembrei, lendo, da famosa lei promulgada nos EUA depois dos atentados do 11 de setembro. 
Assim como nessa época, na Alemanha, os vilões eram os judeus, os poloneses, tchecoslovacos e franceses, agora os vilões, caracterizados assim em inúmeros filmes, séries, até livros, são os árabes. E nós, como os alemães, estamos engolindo a história que os EUA estão contando para nós.
Isso me lembra dos filmes de ação que vi agora no Carnaval. Eu não sei mais por que assisto, acho que para ficar nervosa e ficar reclamando o tempo todo. O último filme de Transformers é uma piada. O filme começa, como sempre, com Optimus Prime contando como eles moram "em paz com a humanidade", protegendo-a e tudo o mais. Só que eles não protegem o "mundo, a humanidade". Eles protegem os interesses dos gringos, tanto que aparecem "servindo o mundo" invadindo um suposto território de testes nucleares, cheio de árabes. É ridículo, o filme o tempo todo fala de mundo no geral, mas o governo gringo manda e desmanda, e os robots se submetem ao ministério da defesa do país, o exército aparece no filme mais que os mesmos protagonistas, os maus são sempre moreninhos. E no final, quando os robôs do mal são destruídos, uma bandeira gigante americana é enquadrada, sem nenhuma razão para estar no meio de uma rua, ondeando vitoriosa ao vento. Eu sei que o filme é produzido nos EUA, mas é patético. Os EUA declarando ao mundo seu direito, saído de sei lá que decreto invisível, de tomar decisões sobre o mundo inteiro. O outro foi Velozes e Furiosos 5, outra piada, onde os bandidos ladrões de carros de repente são os mocinhos aqui no Rio, com direito a matar policiais cariocas com a desculpa de que "são corruptos", e a destruir a cidade. E nem falar do policial bombadão americano, que faz e desfaz nas ruas do Rio, invadindo a favela e matando à vontade, sem intervenção da dita polícia "má". Eu fiquei rindo, se fosse de verdade, os gringos nem iam ousar pôr o pé na favela, iam sair correndo de medo! E claro, depois de destruir meia cidade, fechar a ponte Rio-Niterói e tudo o mais, os safados ainda saem intocados. 
Eu acho que esses estereótipos dos filmes americanos estão cada vez mais ridículos. Cada vez mais aparecem filmes sem noção onde eles são os donos do mundo. E não aguento isso. Nacionalismo é bom?  Claro, vejam aonde levou o nacionalismo excessivo a Hitler! E o engraçado é que o resto do mundo consome esses filmes e ainda gosta. Obaaaa! Os gringos destruindo o Rio, obaaaaa!
Outra coisa em que venho pensando é o racismo. O racismo nas pequenas coisas. Se eu pergunto na rua às pessoas se elas são racistas, vão falar que não. Mas os seus atos, até um pequeno porém fazem toda a diferença. Ontem, por exemplo, estava falando pela net com um sujeito da Argentina, e achei absurdo quando ele disse "a criminalidade está aumentando aqui", ao que respondi, que, tristemente, até na cidadezinha onde moro tem crimes. Ele respondeu: "Ah, claro, lá com tanto mulato, deve ser mesmo...". Isso demonstra duas coisas: o sujeito acha que os brasileiros são todos negros, e o pior, que por isso há crime. É absurdo! Eu disse que a raça não importa, se o sujeito é mau, pode ser até da cor do leite, que vai assaltar, matar, traficar. Se fosse só esse sujeito que pensasse assim, até que passa, mas há muitos por ai que pensam igual, que colocam na cor da pele a culpa: ahh, o negro é preguiçoso, não gosta de trabalhar, são todos bandidos... como Hitler também disse, eles são a causa da decadência da sociedade (para ele todos os não arianos eram). Assim, mesmo que as pessoas não gostem de Hitler, olha elas seguindo os passos dele! Não matam, claro, mas o racismo está ai, escondido, prestes a sair em olhares fechados, em frases como "ele é negro, mas é boa gente". Poxa, como assim "mas"? Como assim que os negros bonitos são descendentes de alguma mistura com branco? (o pior é que tudo isso já ouvi isso, de verdade, dito com a maior convicção!!!) Como assim que os negros são isso ou aquilo?  Eu não entendo, as pessoas falam de modernidade, execram os crimes do Hitler, mas estão igualzinhos! Intolerância à ordem do dia! 
Para terminar, outra questão: as propagandas absurdas e machistas que há nestes dias na televisão. Fiquei de queixo caído quando vi a porcaria de publicidade do desodorante Axe. Esses comerciais sempre foram um lixo, mas chegaram ao extremo de tratar as mulheres explicitamente como bichos. Claro, não está escrito, mas o homem na arca, esperando o seu "rebanho" chegar... Noé deve estar morrendo de raiva, afinal ele ficou fechado nessa nau com um monte de bicho fedorento, podia ter feito o que o sujeito do comercial fez e encher a arca de mulheres... olha ai um pensamento bem machista! É absurdo que ninguém reclame, que as pessoas não percebam. Mulheres, cadê vocês?  Outros comerciais igualmente sem noção, totalmente ridículos, são aqueles do carnaval. O homem saindo de sua casa, triste, para a guerra, para depois aparecer pulando no carnaval rodeado de mulheres rebolando, enquanto a esposa está em casa... que coisa mais machista! Esse negócio da mulher ficar em casa enquanto o homem se diverte é coisa da época dos meus avós! Absurdo uma coisa dessas em pleno século XXI! Que a mulher não pode sair e curtir as festas junto com o marido?  Ahh, não, claro, que graça tem se ele não vai por ai com outras, não é verdade?  Essas publicidades me dão nojo. 
Aiaiaiai sociedade, nos achamos tão modernos, e todavia temos tanto passado revivendo por ai...


Aqui você também pode ler:
Ocidente vs. Oriente
De respeito e o que aconteceu no Afeganistão
De Ideologias e a Visão que os E.U.A Têm do Resto do Mundo
Em Nome de Deus

11 de fevereiro de 2012

Jesus Banal

Ontem no grupo de teatro, o professor pediu para a gente falar uma frase. Qualquer coisa. Uma das minhas colegas, espírita, disse: Eu acho ridícula a frase "Jesus te ama". Eu fiquei refletindo nos motivos que ela tem para achar a frase ridícula. Ela disse que acha a frase obvia, ou seja, ela já sabe que Jesus a ama, não têm que ficar falando isso o tempo todo para ela. E ai, juntando o que ela disse, com todas as coisas que tenho visto no Facebook, e com todos os chavões de "crente" que se usam nos programas evangélicos na televisão, percebi que o que faz as pessoas achar a dita frase banal, ou então pensar que os cristãos são um tipo determinado de pessoa (para as pessoas que não são evangélicas, crente é aquele que fala aleluias, glórias a Deus, discursa nas praças falando mal do capeta e fala "Jesus te ama". Os evangélicos tornaram Jesus uma figura banal. 
Você abre o seu Facebook, lá encontra um monte de postagens falando de Jesus, comparando como o diabo vê a gente, como Deus vê a gente, falando que a gente vive bem no ano inteiro enquanto os outros não, em fim, falando que somos melhores que aqueles que não são cristãos. E se toma o nome de Jesus e se coloca em tudo, desenhos mal feitos, montagens mal feitas, comparações sem sentido (como por exemplo uma que vi agora mesmo: quem ama de verdade, Jesus ou as pessoas bonitas?)(!) Está ficando tudo num nível absurdo. E não somente nas redes sociais, na vida real as pessoas levam o nome de Jesus a virar frase de efeito, é Jesus pra lá, Jesus pra cá, "Jesus te ama", "Jesus me deu o carro", "Deus me abençoa muito", "quer ser feliz venha pra Jesus", etc. Talvez as intenções dos sujeitos sejam boas. Talvez o que eles pretendem seja evangelizar. Mas se esquece que Jesus não é nossa propriedade, que não é só mais um nome. De tanto falar de "Jesus", as pessoas nem sabem mais quem é ele. 
Uma coisa interessante de ontem foi a afirmação que ela fez de que ela sabe que Jesus a ama, que é algo que não precisa ser re-afirmado. Ela é espírita. Geralmente, os crentes vêem as pessoas que não são evangélicas como pessoas ignorantes, que precisam aprender tudo sobre Jesus, pessoas dominadas pelo diabo e sabe-se lá que mais coisas. E, no entanto, ela sabe quem é Jesus, e sabe do amor dele, e o respeita, mesmo sem ficar usando o dia inteiro jargões e expressões de efeito com o nome dele. 
Eu creio que devemos rever a forma como falamos de Deus aos outros. Geralmente, e isso é evidente no Facebook, assim como em tantos outros lugares, os evangélicos chegam com um ar de superioridade, como se soubéssemos os segredos do mundo, como se fossemos os únicos seres humanos felizes e bons sobre a terra, como se fossemos de uma espécie superior. Eu já falei muito sobre isso no meu blog, mas as coisas que vejo por ai postadas são tão absurdas que me indignam, como sempre, aliás. Agora está na moda postar mensagens do tipo "somos melhores", coisas totalmente sem noção. Isto é, tudo bem, se o evangélico quer passar o carnaval na igreja, tem todo o direito, mas assim mesmo tem as outras pessoas de curtir o carnaval onde elas bem entendam, e isso não significa que alguém vai ser mais ou menos feliz no resto do ano. 
Achei interessante uma postagem que dizia: "Meu ídolo morreu e ressuscitou, e o seu?" Só que não falava de Jesus, mas de Goku, uma personagem de desenho animado. Obviamente eu achei muito sem graça, porém, alguns dos comentários ao desenho expressavam justamente o que as pessoas fora da igreja pensam de nós, "crentes". Alguns foram lá defender Jesus e falaram que era falta de respeito, etc. Até acho que é, falta de respeito à nossa fé. Porém, o que mais podemos esperar num site que todos compartilham, cheio de mensagens ofensivas contra os que não são evangélicos? Se a gente fala na cara deles que são uns infelizes que levam vidas miseráveis, porque ficamos chateados quando mexem conosco? Um outro dos que comentou falou que não aguenta os "crentes fanáticos, que metem Jesus em tudo", e outro ainda falou que crente só sabe ficar ofendido e levar tudo a sério. 
Não gostei da postagem, achei muito sem graça, mas é um aviso. Nós não podemos tratar os outros como espécie inferior e depois reclamar respeito. Nós devemos parar de ficar falando de Jesus no automático, ou, como se diz, temos que deixar de falar "evangeliquês". Se de verdade queremos que as pessoas conheçam Jesus, devemos deixar de falar dele como se fosse o filho do vizinho, ou um simples mantra, ou o gênio que concede desejos. E devemos deixar de encher o saco dos outros com a nossa "Fé" fervorosa. Se somos cristãos, muito bom. Mas não podemos chegar e impor nossas crenças, nossa fé, nossos pontos de vista, aos outros. E com certeza não podemos trata-los como se fossem ignorantes miseráveis, posto que, ainda que não sejam crentes, são pessoas iguaizinhas a nós, com sonhos, desejos, vidas e famílias. Depois, quando revidam, não achamos engraçado, sendo que nós mesmos estamos tornando Jesus um assunto totalmente banal.


Aqui Você Também Pode Ler:


Ler a Bíblia sem Óculos
De Preconceitos, Estereótipos e Hipocrisia
Da Confiança em Deus Quando se Confiou Nos Seus Filhos
Quando se Diz Que a Razão Mata a Fé
Proibido Pensar?

19 de dezembro de 2011

O Cândido de Voltaire, o Mundo e o Autor de Eclesiastes

Acabei de ler o livro "Cândido ou o Otimismo", de Voltaire. É um romance muito interessante, onde o filósofo narra as desventuras de Cândido, um rapaz que aprendeu desde criança que este é o melhor dos mundos possíveis, que tudo o que acontece sempre é bom, que tudo leva ao bem e todos estão maravilhosamente. Esta é a filosofia positivista de Leibniz, a qual Voltaire combate ao longo de todo o livro. Cândido passa por muitas desventuras, encontra seu antigo professor, o otimista Pangloss, perde sua amada, a encontra e a perde de novo, viaja para América, encontra o pais de Eldorado, único lugar da terra onde todos são efetivamente iguais e felizes, um paraíso perdido, no qual, contudo, Cândido e seu servo Cacambo não ficam por muito tempo, um querendo encontrar sua amada e o outro desejando voltar à sua terra, a Europa. Eles partem cheios de riquezas, que contudo perdem depois de muito caminho, Cândido é roubado por um holandês, por muitos franceses e por mercadores. Depois encontra um filósofo para o qual tudo no mundo é ruim, chamado Martinho. Ele é o oposto de Pangloss, que tinha sido enforcado mas que depois Cândido vai achar de escravo numa galera, remando. Depois de idas e vindas, Cândido reencontra sua amada, agora muito feia, e casa com ela por teimosia, perde o resto da sua fortuna e termina com uma granja em Constantinopla, vivendo com uma mulher amargurada, um servo que reclama da existência e um Pangloss que não admite que este não é o melhor dos mundos. Ele, Cândido, Martinho e Cacambo discutem esse assunto ao longo do livro, ora afirmando, ora confrontando essa afirmação ao que encontram no caminho: pessoas que sofrem, miseráveis, tristes, países em guerra, injustiças e opressão. No fim, Cândido, depois de conhecer um homem que simplesmente é feliz com o que tem, em lugar de procurar uma felicidade idealista, conclui que o que ele tem a fazer é "cultivar o seu jardim". Assim, ele chega a um equilíbrio entre o otimismo de Pangloss e o pessimismo de Martinho. O mundo não é nem o melhor dos mundos possível, nem a pior das porcarias. O mundo é algo a ser aproveitado. Tem suas coisas boas, e tem suas coisas ruins, e o melhor a fazer é desfrutar o que se tem, e ser produtivos, já que o homem não nasceu para o ócio. 
Este livro, mesmo sendo escrito há muito tempo, ainda é muito atual. Hoje em dia, mesmo que todos saibam que há tristezas no mundo, que há muitas injustiças, que há opressão, desigualdade, racismo, preconceito, escravidão, violência, as pessoas muitas vezes pretendem fingir que não há nada disso. O mundo consumista de hoje faz as pessoas cegas, preocupadas com seus próprios umbigos, interessadas unicamente em adquirir mais e mais coisas para seu próprio prazer, buscando a sua felicidade sem se importar com os outros. Cândido, na sua caminhada pelo mundo, se surpreende com todas as desgraças que acontecem aos homens, e, querendo encontrar alguém feliz com sua condição, não o encontra, nem mesmo quando esse alguém é rico, pois é tão rico que fica aborrecido com sua própria riqueza, e não acha mais prazer em nada. Hoje há muitas pessoas assim, que têm tudo e não têm nada, que, mesmo sendo ricos, não são felizes.
Não posso deixar de ligar o pensamento de Voltaire ao do autor do Eclesiastes. Tanto um como outro refutam um pensamento: Voltaire, aquele de que o mundo em que vivemos é o melhor possível, o autor de Eclesiastes, o pensamento, ou melhor, a teologia que diz que o justo se da bem e o mau se da mal. Eles não tem que fazer outra coisa que dar uma olhada ao seu redor: onde quer que eles vêem, há dor, tristeza, injustiça. E o pior é que poucas coisas mudaram desde os tempos bíblicos, e desde os tempos de Voltaire. Ainda há injustiça, maldade, opressão, desigualdade. O que acho mais interessante é que os dois autores chegam a uma conclusão semelhante: ante todas as tristezas do mundo, o que há de melhor a fazer é aproveitar o dia-a-dia. Cultivar o jardim, aproveitar o tempo, desfrutar das coisas do mundo: o pão, o vinho, a mulher ou o homem com quem se está. Não adianta querer inventar um mundo perfeito, pois o mundo não o é. 
No final do livro, Pangloss ainda teima que este é o melhor dos mundos e que todas as desgraças sofridas por Cândido foram boas. Ao que este responde: "Muito bem, mas é preciso cultivar nosso jardim". É uma frase que resume todo o pensamento de Voltaire, e que se coneta com o "bebe teu vinho, come teu pão e desfruta a vida com a mulher da tua juventude, pois esta é a tua parte na terra" (versículo parafraseado) de Eclesiastes. E que, ao meu ver, é o melhor que podemos fazer neste nosso mundo maluco. Não podemos nos enfiar numa cápsula de cristal e pretender ignorar as tristezas deste mundo. Mas também não podemos achar que não há nada neste mundo que valga a pena (como muitos cristãos fazem). Temos é que viver a nossa vida, dia após dia, com simplicidade, sem deixar-nos levar pelo consumismo do nosso tempo, fazendo bem o que podemos fazer.

24 de novembro de 2011

Menina, Mulher e a Perda do Auto-respeito

Às vezes acho que o mundo está virando de cabeça para baixo e ninguém percebe. E quem percebe se enfia na cabeça que a solução é se fechar ao mundo e viver numa redoma de cristal, que se chama fé, igreja ou o que seja. E enquanto isso, o mundo continua virando. Nestes dias vi no Facebook uma dessas postagens prontas, e achei interessante. Ela dizia: "As mulheres ficam esperando pelo seu príncipe encantado, mas não se preocupam em se comportar como princesas". A afirmação é absolutamente verdade. Hoje em dia as mulheres estão se comportando de formas absurdas. 
Me pergunto se foi para isso que as mulheres do passado recente lutaram, se foi para isso a libertação feminina. Agora tenho TV a cabo, e uma das coisas que gosto de assistir são vídeos musicais. Porém, ultimamente os vídeos tem me deixado estarrecida. Eu sei que desde sempre mulheres rebolando com poucas roupas foram usadas para vender. Mas agora está demais. Além das letras horríveis das músicas, que só cantam coisas como "me morda", "venha me pegar", "estou nem ai se saio com muitos caras", "vamos transar esta noite" e "vou te seduzir", as cantoras estão competindo sobre quem exibe mais o corpo. O que me deixou mais chocada foi ver meninas mal saídas da adolescência ou ainda apenas entrando nesta (como a filha do Will Smith) cantando que vão pegar o homem, que vão trair o homem, que são livres de quebrar o barraco e fazer o que bem entendem, quase sempre sexualmente falando. A liberdade duramente conquistada virou libertinagem.
O problema é que fazendo isso a mulher está se degradando. Está ainda concordando com a mentalidade machista de mulher-objeto, mulher que se vende como um produto na vitrine. Do tipo: se não estou gostosa, ninguém me pega. Que não haja mal-entendidos. A mulher que ama a si mesma se cuida, se arruma. Simplesmente por gostar de si mesma. E o auto-respeito, então? Parece que as mulheres procuram que os homens as respeitem e as tratem como devem ser tratadas, mas vivem demonstrando que não se respeitam nem um pouco, vendendo baratos os beijos, que dão a qualquer desconhecido em qualquer boate, isso para não falar do próprio corpo. 
Não estou pregando aqui o vestir-se de freiras, ou sei lá que puritanismo extremo. Simplesmente o simples bom gosto que as mulheres têm que ter quando se vestirem, e na forma de se comportarem. Elas têm que lembrar que valem muito, que não são objetos para passar pela vida de mão em mão, exibindo seus atributos para chamar a atenção, deixando que as tratem como lixo. Já bastante temos com a indústria da música, com a televisão, com a publicidade que ainda passam a imagem da mulher burra, loira e gostosona que só serve para mostrar o peito e a bunda para a felicidade masculina. Já temos bastante com a luta que as mulheres têm para conseguir um salário digno, para superar o machismo numa sociedade que ainda é extremamente machista. Já temos bastantes mulheres filés, frutas e outros comestíveis, que, pelo menos para mim, são vergonhosas. As mulheres devem se respeitar um pouco, caramba! Para não terminar nos braços de caras como o Enrique Iglesias, que canta "eu vou te amar esta noite (leia-se transar com você), você conhece minha fama, sabe como eu sou mas mesmo assim está afim de mim", num vídeo que mostra que o amor dele dura menos de uma noite, depois de uma rapidinha ele já partiu para outra. E as pessoas ouvem isso e acham a música o máximo...
E o pior é que como as coisas estão, a infância das meninas está acabando. Desde crianças são instruídas a comprar maquiagem (vejam-se algumas propagandas de maquiagem em canais infantis) para conquistar "o gatinho dos sonhos". Meninas que nem sabem lavar a calcinha, como diria minha mãe, que deveriam estar pensando em brincar e curtir a brevidade da infância, se preocupam com saltos, maquiagem, roupa ousada, chapinha no cabelo, unhas feitas, sem falar nas fofocas dos famosos e em quem delas já começou a namorar. Meninas que vêem garotinhas como elas rebolando nos clipes musicais e falando que vão fazer o cara "pirar" por elas. Misericórdia! 
Este mundo está cada vez mais maluco, e os valores estão sendo jogados no lixo à toa. E no meio disso tudo há meninas crescendo acreditando que no mundo só se pode viver se se é a mais bonita, a que mais fica com um e com outro. Afinal, agora somos livres de fazer o que queremos. Só que uma coisa é liberdade, e outra libertinagem. E a libertinagem não machuca ao próximo, machuca ao libertino. Cedo ou tarde. 
Graças a Deus as mulheres atuais temos mais liberdade com relação às nossas avós. Graças a Deus podemos pensar por nós mesmas e agir por nós mesmas, e sermos independentes. Vamos continuar a desperdiçar nossa liberdade agindo como vagabundas, gritando ao mundo que só servimos para rebolar, vender produtos e pegar homens? A mulher é muito mais do que isso!! 


P.S. Uma cantora muito boa que não anda ensinando a bunda, e é maravilhosa, é a Adele. Todas deviam seguir o exemplo dela...

21 de agosto de 2011

A Megera Domada e a Condição da Mulher

Algumas semanas atrás li o livro de Shakespeare "A Megera Domada". É um livro interessante. Mostra perfeitamente a mentalidade machista da época de Shakespeare. Devo dizer que não gostei. Tudo bem, é engraçado, as situações, as falas das personagens. E é absolutamente filho da sua época. A trama é simples, um homem que tem duas filhas, uma das quais é muito rebelde, e quer casá-las, mas que, como só recebe propostas para sua caçula, a "meiga", põe a condição de casar primeiro a rebelde Catarina, para assim sua caçula ter o direito de casar. Assim, os aspirantes à mão de Bianca, a caçula, procuram um homem disposto a casar com Catarina. Ai chega Petrucchio, um homem que procura um casamento que lhe proporcione uma bela dote. Ele aceita o desafio de domar Catarina, casa com ela depois de acordar a dote que receberá e começa a domar sua mulher, deixando-a com fome, frio e sem sono, até que ela se rende e passa a ser totalmente submissa à vontade de seu marido. Enquanto isso os pretendentes de Bianca arrumam jeitos de se aproximar dela, até que um deles consegue conquistá-la, e foge com ela para casar-se, enquanto o outro aceita a derrota e vai atrás de uma viúva com condições econômicas para casar com ela. 
Há vários aspectos da obra que mostram a condição da mulher nessa época. O primeiro é a condição da mulher de objeto, propriedade, primeiro de seu pai, e depois de uma transação comercial, de seu marido. A obra mostra isto claramente quando o pai das moças, Batista, impõe a condição para o casamento das suas filhas. Também é notável que o único motivo pelo qual Petrucchio quer casar com Catarina é o dinheiro que vai ganhar com o casamento. Não se fala de amor, não se fala de sentimento algum, além da ganancia. Ela foi vendida pelo pai e comprada por Petrucchio. 
Outro aspecto é o caráter das moças. Catarina é chamada de megera por ter as próprias opiniões. Ela também é grossa com as pessoas, sobretudo os homens, e rejeita o casamento. Nessa época, porém, era imprescindível para a mulher que casasse, e por isso ela é considerada uma moça horrível. Bianca, pelo contrário, faz tudo o que o pai ordena, é educada com todos e segue as opiniões dos outros. Pode-se dizer que há um exagero no contraste entre as duas. A educada, doce, dócil, atenta ao bem de todo mundo menos o dela. A megera, rebelde, mal-educada, grossa, que se atreve a bater no professor e a caçoar dos que a cortejam. Assim, na época de Shakespeare a mulher desejável era aquela que vivia para o seu dono, primeiro seu pai, depois seu marido.
O tratamento que Catarina recebe depois do casamento é atualmente ilegal. Mas no livro é a coisa mais normal. Nessa época, sendo o homem dono da sua mulher, podia fazer com ela o que bem entendesse. Assim, Catarina passa fome, frio, o marido se comporta como um louco, não a deixa dormir, não a respeita, até que ela se submete a ele. E é uma submissão completa. Ela deixa de ser pessoa, e passa a ser sombra do seu dono-marido. E se ele diz que está escuro, mesmo vendo o sol brilhando no céu, ela deve concordar. Se ele trata um ancião como se fosse uma bela moça, ela deve secundá-lo, sob pena de novos maus tratos e loucuras por parte do marido. E quando ela se submete, Petrucchio é felicitado por todos, já que "domou a megera!". Ele merece um premio por fazer da sua mulher um robô às ordens dele. 
Não gostaria de ter nascido na época de Shakespeare. Mas a mulher não foi tratada assim só nessa época. Desde há muito tempo, desde os tempos bíblicos, e quem sabe quanto tempo antes, a mulher foi tratada como um ser inferior, um objeto, alguém submetido ao todo-poderoso homem. Mesmo na atualidade há sociedades onde a mulher é tratada assim, onde ela é inferior. O Islã legitima isso, a mulher é, por ordem divina, um degrau inferior ao homem. E até pouco tempo atrás, na nossa sociedade a mulher era criada para casar, ter um monte de filhos e se submeter a todas as vontades do marido, sem direito a reclamar pelas humilhações que o marido pudesse lhe fazer sofrer. Se ele tinha muitas amantes, ela não podia dizer nada, pois afinal os homens são assim, "têm necessidades especiais". Se ele pegava ela pelos cabelos e a arrastava pelo chão, ela não podia reclamar, afinal essa era a "sua cruz" e ela, como boa cristã, devia carregá-la.
A obra de Shakespeare é uma janela ao pensamento da época dele sobre a mulher. Mas, lido com os olhos da minha atualidade, é um livro indignante. Queria dizer que é um pensamento ultrapassado, que agora a mulher é tratada dignamente, que agora ela tem direito a pensar, a decidir se quer casar ou não, ter filhos ou não, que ela pode ter personalidade. Queria dizer que o casamento agora é uma comunhão igualitária, onde os dois estão no mesmo nível e as coisas se falam para chegar a um ponto comum. Mas ainda falta muito. Sobretudo em Latino-América, onde a sociedade é tradicionalmente machista, onde ainda há a imagem da mulher como objeto, símbolo sexual, simples portadora de seios e nádegas, objeto não pensante, alguém que só serve para ser dona de casa, para servir o marido, para aguentar os chifres, onde ainda há muitas mulheres maltratadas que não denunciam seus maridos, ainda falta muito para deixar para trás uma obra como "A Megera Domada". É algo triste. Eu conheço as histórias de minhas avós, minhas bisavós, a avó do meu marido, histórias de submissão, de violência, de dor e de silêncio. E quando alguém sai do padrão, como minha avó, que teve a coragem de lutar pela sua dignidade, então ela é que é a louca, aquela que teve que criar sozinha os filhos, aquela que jogou o casamento pela janela. Idem com minha sogra. E o preconceito é sempre sofrido pela mulher, mesmo quando o homem está errado, mesmo quando ela simplesmente não quis se submeter. Ela é sempre a megera. A rebelde, a grossa, a chata.
A sociedade foi, durante muito tempo, um lugar de privilégios exclusivos para os homens. Imagino que ao longo dos séculos houve muitas "megeras" que não se deixaram domar. Mas no geral o homem estava certo e a mulher devia ser simples sombra do seu homem. Agora há um espaço para as mulheres. Ainda falta muito, como já disse, para uma sociedade justa e sem preconceitos, mas pelo menos agora as mulheres podemos escolher o destino das nossas vidas. E casamento não é mais, pelo menos na maior parte dos casos, uma transação comercial, nem uma relação de dominação. Muitos, ao ler isto, pensarão que eu sou feminista. Mas não me vejo como tal. Não detesto os homens, nem os desprezo. Mas também não me conformo com o machismo existente na sociedade. Eu queria era igualdade. Sem predominância de um ou outro gênero. Mas, como tudo na vida, para a mulher chegar a um ponto de igualdade com o agora não tão poderoso homem, ela deve lutar. Como tem lutado há tanto tempo. Catarina nesta época teria um fim bem mais digno do que o que Shakespeare lhe deu. E Batista e Petrucchio poderiam, com toda a razão e com todo o gosto, ser mandados ao inferno (ou a catar coquinho, ou a comer aspáragos, como se diz na Colômbia)...

31 de julho de 2011

Ocidente vs. Oriente...?

Eu sei que estou um pouco atrasada para falar sobre o massacre que aconteceu na Noruega, mas também sei que tenho que falar disso. Porque é um absurdo, e um absurdo de proporções gigantescas.
Depois de saber da notícia, e ficar espantada, como sempre, pela loucura e a maldade a que podem chegar alguns, fiquei indignada com uma notícia que vi no jornal alguns dias depois. No jornal falaram que na Europa, em alguns países e em partidos de extrema direita, políticos tinham falado em favor do norueguês assassino e das suas ideias. Um dos políticos italianos seguidores de Berlusconi chegou a dizer que as ideias do norueguês eram magnificas, enquanto outro dizia que por fim alguém se levantava para defender o Ocidente. Achei absurdo. E achei ainda mais absurdo que ninguém na Itália se indignou com estas afirmações, nem afastaram o político do cargo, como fizeram com um que na França disse coisas semelhantes.
Como é possível que as pessoas ainda tenham esse pensamento medieval? Como é possível que pessoas que se dizem "cristãs" defendam a posição desse assassino que se escudou em desculpas ridículas, racistas e anti-humanitárias para assassinar seus compatriotas? Como disse Osvaldo, esta vez foi um louro, um europeu puro sangue quem cometeu os atos terroristas que os "ocidentais" amam imputar aos morenos muçulmanos. Até quando vamos ver o mundo através da cor da pele, através dos credos pessoais, da geografia? Até quando a divisão artificial entre "Ocidente" e "Oriente"? Não somos todos cidadãos do mesmo mundo? As mudanças climáticas não afetam todo mundo? Não sentimos igual, pensamos, vivemos, sonhamos igual?
Essa declaração do norueguês miserável e assassino, aplaudida por alguns babacas europeus, nos coloca num perigo muito real: o de volver atrás, ao tempo da Idade Média, onde se matavam judeus por "terem matado Jesus" e onde se perseguia muçulmanos por serem dessa religião. Agora devemos adicionar os imigrantes, aqueles corajosos que deixam sua terra e tudo o que conhecem para enfrentar o desconhecido, em busca de uma vida melhor. Não é direito de todos procurar uma vida melhor? Os mesmos europeus, os mesmos italianos emigraram um dia a outros países, procurando um melhor futuro. Se Europa não reclamou, se Itália não reclamou contra o que seus políticos disseram, o que podemos esperar do futuro? Paz não, com certeza. E os atos sangrentos do norueguês, que foram rejeitados pelo mundo inteiro, se encontrarem eco em alguns poucos, políticos ou não, poderão ser repetidos?
Eu não entendo porque as pessoas são tão intolerantes. Porque, depois de tantos discursos de igualdade, liberdade e fraternidade, ainda não se aprendeu a viver como seres humanos, sem divisão de classes, de raças, de credos. Europa se orgulha de sua fraternidade, o lema dos franceses é justamente "liberdade, igualdade, fraternidade". Mas até onde chega tanta democracia? Até onde os "defensores da liberdade", como os europeus e os americanos amam chamar a si mesmos, vão para defender esses princípios? Se seguem, se seguimos encarando o mundo como Ocidente e Oriente, como se o globo estivesse dividido no meio com uma linha, se não encaramos os outros como sendo iguais a nós mesmos, ainda que sejam muçulmanos, ainda que sejam imigrantes, a dor ainda vai continuar, porque haverá sempre loucos como o norueguês, achando-se donos da verdade e da vida dos outros, sem escrúpulos para causar dor e derramar sangue. Contra Osama se realizou uma operação guerreira, até vê-lo morto. Com o louro e europeu norueguês, se escutaram vozes de consentimento, mesmo que poucas, com seus "ideais ótimos". Definitivamente o ser humano é uma maravilha...


P.S. Pensando bem, e tendo em conta que a Terra é redonda, podemos dizer que nós estamos ao Oriente deles...

5 de julho de 2011

Em Nome de Deus

Em nome de Deus já se fizeram muitas coisas. Se condenaram pagãos, se rebelaram camponeses, se invadiram países e se massacraram povos. "Deus" tem sido usado para justificar muitas ações, que no fundo tinham como base mesmo era a ambição de alguns, o desejo de poder de poucos. 
A história mostra muitas abominações feitas em nome de Deus. Os índios foram mortos e os negros escravizados em nome de Deus, e depois mortos e torturados por grupos de "cristãos" como o Klu Klux Klan. Durante as reformas protestantes, Lutero e muitos outros mataram em nome de Deus, e os camponeses, os anabatistas e muitos outros grupos que se atreveram a pensar por si mesmos foram condenados por ir "em contra de Deus". E também se levantaram "profetas" que em nome de Deus proclamavam o fim do mundo e que realizaram loucuras como os acontecimentos de Munzter (cf. Jan de Leiden). As cruzadas massacraram os povos árabes em nome de Deus. Na época vitoriana era mais fácil mandar as prostitutas para o inferno do que mudar as injustiças e a hipocrisia da sociedade.
Muitas vezes o nome de Deus se usou para submeter vontades, para justificar injustiças, para manipular massas. Até os dias de hoje se ouvem muitos absurdos pronunciados em nome de Deus. Milagres, promessas, o nome de Deus se usa para vender benefícios e para comprar fidelidades. "Deus" é usado para justificar doutrinas contrárias umas às outras, para amaldiçoar pecadores e para curvar pessoas a determinadas regras. Uns dizem que Deus não aceita tatuagens, outros dizem que Deus não gosta de quem bebe, alguns dizem que Deus está à disposição de quem quiser um milagre, outros condenam quem não segue direitinho o manual de "seguidores de Deus". Deus até autorizou a invasão do Iraque (O Bush achava que estava servindo a Deus, ou pelo menos isso disse...)!
 Me pergunto o que Deus pensa de todo esse mal uso do seu nome... e o pior é que foram ações humanas as que usaram o nome de Deus para encobrir-se ou justificar-se, mas as pessoas muitas vezes não querem ouvir falar de Deus por culpa de todo o mal que já foi feito em seu nome!  

31 de março de 2010

2012 e a sociedade de 2009/2010

Semana passada tive a oportunidade de assistir o tão famoso filme "2012". Não achei a grande coisa. Os efeitos especiais até que são legais, mas nem por todos os efeitos possíveis a história do filme se salva. É uma história fraca. E muito cínica. O único que gostei mesmo é que o filme é tão descarado que da para falar um monte de coisas sobre ele.
Descarado porque? A coisa mais óbvia é que só os países do primeiro mundo se salvam. Mas tem mais do que isso. Não são todos os europeus e norteamericanos que se salvam. Não. São só os ricos, os poderosos, os governantes (deve ser para garantir que no "novo mundo" a corrupção apareça o mais rápido possível...).

Este filme é descarado não tanto porque os ricos se salvam. Nisto ele é até realista. Quando alguma coisa acontece, se o rico se salvou, podem ter morrido outras tantas pessoas que ninguém está nem ai. Se assassinam um famoso, a polícia faz de tudo para achar o culpável. Se for um zé ninguém, muitas vezes nem se sabe que morreu alguém. Tantas pessoas morrem todos os dias, seus crimes arquivados em algum estante cheio de poeira... Mas voltando ao filme, ele é descarado porque quem se salva, sob o comando do "magnânimo" geólogo estadunidense, se acha o bom samaritano porque abriu as portas da "arca" para "o pobre pessoal que tinha ficado sem arca". Não foi ato de crueldade ter deixado morrer milhões, bilhões de pessoas do mundo todo. Foi ato de crueldade a negação do Anheuser de abrir as portas da arca para os ricos poderem se salvar.

Fala sério. Eu sei que filme de ação é uma coisa ilógica atrás de outra coisa ilógica, e que nesses filminhos a metade do grupo original de personagens morre, comido por tubarões ou assassinado por maníacos homicidas, derretido pelo vulcão ou levado pelo tornado... mas este filme passa sobre tudo isso. Técnicamente eles narram a história de um escritor que descobre que o mundo vai acabar e a conspiração e tudo mais. Ele se tinha separado da mulher, que aparentemente está feliz com o marido novo. Mas quando este último é engolido pelos mecanismos de apertura das portas da arca (no ato de caridade de deixar os pobres ricos entrarem as portas se abrem justo quando os pobres se infiltram na arca por baixo), ninguém chora. Ninguém diz: tadinho dele, eu gostava dele. Depois nem parece que ele existiu. E assim acontece com um monte de pessoas. A amante do russo morre, em um inverossímil afogamento (são três compartimentos, os protagonistas ficam no primeiro, ela passa com uma criança. A criança vai para um tercer compartimento, e a russa fica no meio. Depois, a água enche o compartimento dela, estranhamente sem invadir primeiro o dos protagonistas, que é por onde, técnicamente, a água entra).

Além dessas inverossimilitudes, tem a história dos governantes mártires. Como sempre, o presidente dos EUA salva a pátria e fica com seu povo. Isso não é novo. Em todos os filmes o presidente norteamericano é quase um deus da caridade, cheio de coragem e amor pelos pobres (da até para rir). Mas a piada maior é o premier italiano ficar com o seu povo também. Isso sim faz rir mesmo. Se fosse verdade o tal 2012, o primeiro a entrar no barquinho aquele, com tudo e suas empresas, iria ser o Berlusconi. Ah sim, seguro ele vai ficar e morrer. Ele não quer nem admitir que cometeu crimes e enfrentar a justiça italiana! (e tem dois processos contra ele...) Imagina decidir morrer. Nem em sonhos.

Em resumo, este filme, além de distrair o povo com seus efeitos especiais, além de contar-nos a velha história de como os norteamericanos são súper-heróis, além de aproveitar o alarme todo do tal calendário maia, mostra um panorama real da sociedade atual. Não precisa ser 2012. Como já disse, se os ricos se salvam, o resto do mundo pode se danar. Isto é exatamente o que acontece na sociedade. Não somente no sentido de crimes e morte. Mas no sentido de bem-estar, de justiça social. Os ricos, os poderosos, os governantes, quem seja que tenha um pouco de poder, sempre vão procurar primeiro defender os próprios interesses. Esse papo de representantes do povo é uma mentira que a gente prefire engolir para não aceitarmos que somos enganados. Os ricos só querem ser mais ricos. Quem sai adiante na vida muitas vezes, em lugar de lembrar de onde saiu, se coloca na posse de "sou superior". E claro, gente superior primeiro.

Como já disse, aquele ato falso de generosidade é descarado. "Vamos salvar os pobres ricos!" E o geólogo fica como o herói compassivo da história. Ah claro, ele queria salvar o amigo dele... ele queria salvar todo mundo... Na vida real, não há geólogo nenhum. Só o Anheuser, que não se importa nem com a vida da própria mãe.

Não é meu propósito apelar para aquela coisa de "oprimidos" e "opressores". Mesmo dentro do grupo dos oprimidos há opressores, dispostos a ferrar quem estiver um pouco embaixo deles. Só queria falar de um filme que não gostei... mas que mostra na cara (com alguns adoçantes mentirosos) como funcionam as coisas deste mundo. Ricos, pobres... não é o "destino" quem decide. É o interesse de quem tem poder para fazer algo por si mesmo.

Detalhe final: Eles falam que salvaram a humanidade... como se a humanidade se reduzisse a Europa e Norte America! Ninguém falou em Brasil, Colômbia, Haiti... Nenhum africano entrou nas tais arcas... o unico que mostram do Brasil é o Cristo derrubado e o povo morrendo de fome. Mostra do mundo tal qual é. Se o filme não tivesse tido o geólogo legalzinho, seria uma fiel cópia da realidade, porque, claro, o Anheuser ia poder fazer a vontade dele e mandar até os ricos morrer. Como já disse, se tem um pouco de poder, a pessoa vai fazer tudo... para ganhar algo ela mesma.

6 de novembro de 2009

Mundo encantado

A sociedade em que vivemos é uma sociedade fetichista. Isso eu já sabia, só não sabia o nome. Fetichista. Essa palavra vem do português "feitiço". Assim, a sociedade nos enfeitiça. Como? Com um instrumento mágico: a mídia. Porque? Para viver fora da nossa realidade.
Eu não quero falar aqui de desligar computadores e jogar televisões pela janela. Também não estou querendo voltar à era da pedra. Só quero chamar a atenção da nossa consciência, tantas vezes adormecida.

O mundo em que vivemos é um mundo de sonhos. Em cada loja de eletrônicos podemos adquirir um novo jogo de play station, para virar reis ou príncipes procurando tesouros, matando monstros, criando civilizações. Até há jogos para ter uma vida normal, com cachorros e filhos. Só que no jogo podemos evadir as nossas realidades, os problemas se solucionam com um click. Na internet viajamos por sites do mundo todo, fazemos amigos sem sair de casa, jogamos, compramos. A internet é uma ferramenta útil para a comunicação e para aprender. O problema surge quando deixamos de lado a vida real para passar cada vez mais tempo frente à tela. Dia após dia estamos virando virtuais. Nossa vida está deixando de ser real. Os amigos que temos são perfis de sites da internet. Ou quadradinhos à esquerda da tela, quando falamos pelo msn. Na internet podemos ser quem quisermos, esquecendo nossas vidinhas chatas. Nos livramos da nossa realidade.

Mas além da internet, além dos jogos, a caixinha de encantos preferida de todos é a televisão. Pode ser grande ou pequena, de tela plana, de plasma. O importante é ter uma. Ontem aprendi que a imagem que vemos na televisão nunca é completa. A tela emite na realidade linhas, que se sucedem em 3.3 segundos. A imagem é completada no cérebro. O que isto tem a ver? Tem a ver que o esforço que o cérebro faz para completar as imagens uma após a outra é muito grande. Tanto que ele fica ocupado nisso, e a parte reflexiva dele fica "desligada". De modo que engolimos imagens e imagens sem ter tempo para refletir sobre elas. Como isto nos afeta?

Depois de 50 minutos assistindo TV o cérebro está funcionando no automático. Rolamos em uma "inconsciência" absorvente.

Além da parte "técnica" do negócio, temos o conteúdo da TV. Cores brilhantes. Musicas, histórias cativantes. Tudo muito bonito. E sobretudo, mágico. Na televisão tudo pode acontecer. Os sonhos são realidade. As escovas de dentes falam, os carros andam sós, ou viram robôs, é possível ganhar casas com "uma raspadinha". E nós ficamos envolvidos pelo encanto. O fetiche faz efeito. A TV é mestra em tirar-nos da própria realidade. Quando assistimos novelas vemos que tudo sai bem, que os máus vão à cadeia, que os pobres tem carros chiques e terminam ricos. E o encanto não acaba ai. Desenvolvemos rituais. A TV é, para alguns, uma espécie de religião. Não tem como deixar de ver a novela, porque é terrível. Não posso ir nem ao banheiro, está passando o programa que eu mais gosto...

No meio de tudo, esquecemos de nossos problemas. Até no jornal que mostra os horrores da vida diária, tudo parece ficção. As tragédias viram espetáculo, e deixam de nos importar. Tanto, é uma entre tantas... o que importa é o show.

Uma das coisas que de verdade odeio na TV, e acho que não deveria existir, é a denominada "programação evangélica". É falsa. De evangélica não tem nada. O que se vê é mais um feitiço. Milhares de pessoas comprando "óleos da unção", rosas mágicas, sabonetes que tiram pecados, que vão aos "templos" para que as toalhas com que tomam banho sejam "abençoadas, claro, pagando um pequeno preço antes... e não percebem que estão sendo manipuladas. O que era sagrado virou palavras vazias na boca de muitos, Deus é mais uma das mercadorias oferecidas em ditos programas, feitos por pessoas que, na sua maioria, o único que pretendem é encher o bolso às custas da ignorância dos outros. E estes outros, presos nos seus problemas, cheios de dificuldades, vêm nestes programas enganosos a única solução a tanto sofrimento. Só que:

1. A mensagem é errada. O sofrimento faz parte da vida humana, uma vida sem sofrimento não existe.

2. Os "pregadores" falam em bênçãos e prosperidade, como se Deus nos estivesse devendo alguma coisa. Para alcançar estas "bênçãos" devemos ter "fé" (e pagar o dízimo ou ser patrocinador, é claro). Só que esta fé não é nem sequer posta em Deus, mas nos objetos mágicos que os enganadores oferecem, desde martelos sagrados até canetas da prosperidade, passando por águas, pedras, alianças, e tudo o mais absurdo que se possa imaginar. Mais absurdo e desconcertante é ver que as pessoas acreditam em tudo isso.

3. As tais bênçãos e milagres são paliativos, e causam um mal maior do que o bem. Porque a pessoa acha que vai la, ou assiste o tal programa na esperança de ter seus problemas resolvidos para sempre. Só que novos problemas vão surgir. A vida não é tão simples assim e os óleos milagrosos não resolvem todas as complicações do dia-a-dia. E ai, ou a pessoa vai comprar outra peça mágica para enfrentar o novo problema, ou então vai deixar de acreditar. E como os enganadores estão oferecendo toda essa magia em nome de Deus, elas não deixam de acreditar nos safados que as enganaram, mas em Deus.

4. Em fim, os "pregadores" fazem uso de teologias (se se pode chamar a isso de teologia) simples e mal feitas, e quando se encontram sem palavras para solucionar de verdade um problema, colocam a culpa no ouvinte/assistente. Isto eu vi com meus olhos e ouvi com meus ouvidos. E fiquei em choque. Num desses programas da tarde, repetido em dois ou três canais por essas horas, eu vi um pedaço do programa, no qual os fiéis escrevem ao"missionário" para que ele os ajude a resolver os problemas. Bom, a mulher escreveu que o seu filho a maltratava, que estava sofrendo muito. O que fazer? Resposta do "missionário": Você não é uma autêntica cristã, não conhece o Deus que diz conhecer, porque se o conhecesse não sofreria. Você tem que se arrepender(!) e procurar Deus e "tomar posse da bênção" (aqui ele começou a recitar versículos bíblicos sem nexo um com o outro, todos fora do contexto).

É absurdo. Eles são tão descarados que nem importa ajudar os outros. A mulher sofrendo, desesperada, recebe uma resposta que a deixa mais sem moral ainda, afundando-a mais no poço. Se não tem resposta fácil, então não tem como ajudar. A culpa é dos outros.

Este sistema macabro de manipulação encanta milhares de seres, já enfeitiçados no dia-a-dia com todas as outras coisas que se passam na TV e que acontecem ao seu redor. A sociedade em que vivemos é experta em maquilar os problemas, em ocultar a realidade. Vivemos num mundo onde cada vez mais pessoas estão sendo convertidas em fantoches, alheias ao que lhes sucede, incapazes de reagir contra as situações adversas. E agora, para uma maior alienação, embebidos de magia barata, de remédios falsos, caros, vazios. Porque o "anel da prosperidade" tem seu preço. E não é pouco. São roubadas as vidas, as esperanças das pessoas. E pior ainda, lhes é roubada a oportunidade de conhecer o Deus real, que as ama e sustenta no meio da mais cruel dor.

E nós, cristãos, o que estamos fazendo? Nós que conhecemos mais da Palavra, que vivemos, muitas vezes, num contexto de ritualismo sem sentido, devemos deixar o feitiço! Devemos abrir os olhos, e ver as pessoas que estão sendo presas por este sistema falso e opressor! Não devemos deixar que a alienação tome conta também de nós, fazendo-nos seres apáticos, sem forças nem vontade de nos opor ao sistema dominante. Se as pessoas estão sendo enganadas pelos truques mágicos que aparecem a todo momento na Tv (como passar o palitó em cima de uma fila de "endemoninhados" e outras besteiras do tipo) é também pelo nosso letargo. Se nós sabemos, devemos ensinar. O único caminho para que as pessoas deixem de ser ignorantes é que elas aprendam! E se nós não lhes ensinamos, quem o fará? Os magos-pastores da TV? A sociedade fetichista?

18 de setembro de 2009

A letra escarlate e o costume

Nestes dias li e me apaixonei pelo livro "A Letra Escarlate", de Nathaniel Hawthorne. A medida que o lia imaginava todas as coisas que poderia escrever sobre ele. Lamentavelmente não tinha um computador por perto... mas este livro maravilhoso, reflexo do pensamento de uma inteira sociedade, colonizadora das então terras virgens dos Estados Unidos, tem muito para nos dizer.

Uma coisa que eu amei do livro é como ele mostra, tão claramente, o impacto que a sociedade tem sobre a vida das pessoas. Os protagonistas viviam numa sociedade rigidamente puritana, onde as crianças não podiam brincar e onde todos os aspectos da vida tinham a ver com a religião (pelo menos aparentemente). Um pastor era santo só pelo cargo que tinha. E um pecador era irremissivelmente condenado ao fogo do inferno, de acordo com a gravidade do seu pecado.

O autor faz um tecido maravilhoso de consciências humanas, costumes, ideias. O pastor e a mulher. Unidos pelo pecado. Afastados pelas aparências. E a consequência do seu pecado, manchada no caráter por este mesmo pecado.

Hester é um modelo de sofredora. Numa sociedade que tinha esquecido que Deus é misericordioso e perdoa o pecador, que tinha degradado Hester a mais ínfima das posições na escala social, rejeitada, humilhada e criticada por todos, evitada como se tivesse uma doença mortalmente contagiosa, ela luta por viver. Ela não foge, aceita sua condenação com paciência, consciente de que é merecida. (Aqui tem um aspecto da mentalidade daqueles dias.) Ela vive sua vida procurando apenas se manter e manter a sua filha, a quem não entende. Borda com paixão o seu martírio, a letra vermelha, como se fosse algo digno de orgulho e não de dor. Nem acusa ao pastor, covarde e mentiroso, pela sua ação. Ela é rebelde, no meio de tudo. Não se deixa levar pelas humilhações, não desiste. Continua sempre, fazendo cada vez mais belos trabalhos, vestindo a sua filha como se fosse uma princesa.

O pastor Dimmesdale. O hipócrita. Tanto nessa época como hoje, tantos vão por ai com uma máscara de santidade, mostrando ao mundo o bons e virtuosos que são. Mas o autor não o deixa impune. Ao contrário de hoje, a sociedade de outros tempos tinha consciência dos seus atos. Se ninguém sabia o adultério do pastor, Deus sabia. E ele sabia disso. Por isso sua alma foi cada vez mais atormentada, suas leituras da Bíblia não lhe revelaram o amor e a compaixão de Deus. Se sabia condenado para sempre. (Conforme ao pensamento puritano da época) E queria confessar. Muitas vezes quis confessar. Porém, as aparências ganhavam. O medo do que os outros falassem, o medo de afrontar as consequências do pecado fechava a sua boca, fazendo-o mais culpável, por deixar a mãe da sua filha afrontar a punição sozinha. Esta personagem vive ao longo do livro um conflito intenso, que o desgasta, o martiriza mais profundamente do que a letra fazia com Hester, acaba com a sua razão e com sua vida. Ele foi vítima do seu pecado, afinal. Seu pecado maior, que não foi o adultério. Foi a hipocrisia.

Pearl. "Filha do pecado", o autor lhe da um caráter ao mesmo tempo rebelde e independente, original. Ela, ao ser gerada fora dos padrões estabelecidos pela sociedade, nasce diferente aos outros. É única. Sua mãe não a entende os outros a rejeitam. Pequena e linda, desde cedo aprende a se defender dos outros, das opiniões dos outros, dos ataques dos outros. Se afasta assim do contato humano, não só dos que a rejeitam, mas também da sua mãe, que como já disse, não sabe como lidar com ela. Nathaniel Hawthorne faz de Pearl o reflexo do seu pensamento. Ele era puritano convicto, mas dentro de si não aceitava as convenções. Achava injusto o que eles fizeram com Hester. E assim, fez de Pearl uma criatura livre de convenções humanas, flutuante, livre como um pássaro, que é a descrição mais frequente que ele faz da menina. Porém, o autor se recusa a condenar completamente a sua sociedade. Assim, Pearl, o passarinho livre, só vira ser humano completo, só fica gentil e amorosa com sua mãe e os outros quando o pecado do pastor é revelado, quando ela descobre a sua culpa, ou melhor, a culpa dos seus pais, e entende porque ele andava sempre com a mão no coração, e porque sua mãe carrega a brilhante letra escarlate no seio. O pecado revelado da à menina uma consciência moral que ela não tinha.

O médico Chillingworth. O marido traído. O vingador. A outra face do pecado. Ele é vítima, mas ao empreender o seu plano de vingança contra o pastor, vira um pecador também. Ele é muitas vezes comparado com o demônio, feito inumano por guardar maldade em seu coração contra outro ser humano. Hawthorne escreve tão bem que se pode até imaginar seu coração apodrecendo no meio do peito, comido pelo rancor.

Este livro espelha não somente os costumes da sociedade puritana, suas crenças, seu folclore, mas também é uma janela para o caráter e pensamento do seu autor. Ele nos faz refletir muitas coisas, como o peso da sociedade sobre as pessoas, a grande parte que os costumes e ideologias de cada sociedade têm na vida privada do indivíduo, na sua própria consciência. Na atualidade um casal de adúlteros seria apenas mais um do montão, o caso se resolveria tranquilamente com o divórcio e os "pecadores" nem estariam ai para o que os outros pensassem. Mesmo na igreja, muitas coisas se fazem em baixo do tapete, desde que nenhum irmão saiba, tudo bem. A nossa conciência cada vez mais está ficando adormecida, relativa.

É interessante ver, no livro, como as personagens se debatem com a sua consciência, que foi sendo formada desde seu nascimento, conforme às crenças, conforme ao que se considerava bom e correto. Hester, que aceitou a culpa e o castigo, se pergunta se algum dia Deus irá perdoar ela. O pastor, cuja culpa está escondida às consciências de todos, se atormenta pela sua hipocrisia e porque sabe que, apesar de tudo, Deus sabe de seu pecado. E se acha mais condenado ainda que Hester, pois sua covardia não o deixou confessar o crime. O doutor, tão entregue está à sua vingança que não pensa em Deus, nem na piedade, nem na salvação. Só no final admite ser condenado, também, pela sua maldade.

Esta consciência de culpa é totalmente oposta ao nosso cristianismo moderno. O pessimismo antropológico de Lutero ficou no passado. Agora sabemos que temos perdão. O Deus da Bíblia não nos condena, ele tem misericórdia de nós. E ai temos outro ponto de reflexão. As diferentes interpretações da Bíblia. Como é possível que esse pastor, que pregava cada domingo um belo sermão, que lia a Bíblia com devoção, não tenha encontrado nas suas leituras a misericórdia e o perdão de Deus que nós lemos, que nós encontramos? Como a concepção de Deus pré-moldada que se tem na sociedade pode estabelecer os parâmetros para entender o que lemos? E ainda dizem que cada um interpreta ao próprio modo. Cada um interpreta seguindo o modelo que aprendeu desde sempre! Por mais que o pastor Dimmesdale lesse e relesse textos como João 3,16, ele nunca ia ver nele o amor de um Deus perdoador. Ia ver o amor de um Deus que ama a quem é socialmente íntegro, socialmente correto, responsável e puro.

"A letra escarlate" é um livro fantástico. A leitura é absorvente, se tem vontade de saber o que vai acontecer com tão atormentadas personagens, se sofre pela dor de Hester, da raiva pela covardia do pastor, se odeia o médico cruel. E no entanto, se conhece uma sociedade que foi precursora da atual sociedade americana (se eles vieram ver como esta USA agora!! iram morrer de novo em segundos... de um ataque). Se percebe até que ponto a sociedade pode magoar as pessoas, pode fazer das pessoas alguém digno ou alguém miserável. E se vê até que ponto estamos presos na nossa sociedade, amarrados aos nossos costumes, crenças e ideologias. E se levanta (pelo menos em mim) a rebeldia. Dá vontade de entrar na situação só para defender a pecadora, para levantar sua moral, para opinar. Mas o puritanismo já foi. Agora temos é que opinar na nossa sociedade, mudar as coisas erradas, sair da gaiola do costume.

9 de junho de 2009

Igualdade? Liberdade?

Agora não estou para textos longos. Só queria refletir um pouco sobre a nossa louca sociedade, que se diz livre, se diz democrática, se diz humana. Esta sociedade que se baseia no Direito Universal de que "todos os seres humanos são iguais, tendo os mesmos direitos e deveres..."
Mas será que essa igualdade toda, essa liberdade toda, existem de verdade? Será que a pessoa que caminha na rua, ao ver uma criança jogada em um canto, meio vestida e faminta, se sente de verdade igual a ela? Será que os seus filhos são, para ela, iguais em tudo àquela criança suja?
Duvido muito. O princípio de igualdade, tal como o temos hoje na nossa sociedade, é uma utopia, um disfarce para todas as injustiças descaradas que se cometem por ai. As pessoas não são avaliadas nem tratadas em base ao princípio da igualdade. Elas são julgadas, tratadas, avaliadas, com base na sua posição no mundo, as suas possessões, seu nome. Uma pessoa da rua só é considerada igual por aqueles que estão na sua mesma condição. A igualdade só existe em cada estrato da sociedade. Eu sou igual a quem é da minha mesma condição.
Porém, a sociedade proclama a igualdade universal do ser humano. E nós, seguimos assim, acreditando, fingindo que a sociedade vive o que proclama. A igreja (ela não pode faltar na reflexão, afinal ela se acha diferente da sociedade...) vive no mesmo sonho, a bela utopia da igualdade humana perante Deus. Contudo, a igreja faz distinção entre "justos" e "pecadores", entre santos e perdidos. E a sociedade não sente o agir da igreja.
Jesus veio com a proposta de amar ao próximo como a você mesmo. Outra utopia. Como meu professor falou, se eu amasse ao meu próximo como a mim mesma, não o deixaria passando fome em baixo da ponte. Mas como próximo é aquele que está no meu mesmo estrato social...
Quando deixaremos a hipocrisia? Quando encaremos a sociedade como o que é, totalmente injusta, totalmente desigual, quando não deixemos mais que os outros pensem por nós, e vejamos com nossos olhos a realidade do mundo, talvez haja uma esperança de passar a agir. Claro, é mais cômodo ficar sentado, reclamando do governo e das injustiças (quando elas são cometidas contra nós), olhando as pessoas sofrer sem sequer mexer o mindinho. É mais fácil se escudar em Deus como o ser que nos levará ao céu. É melhor pensar que Jesus veio ao mundo só por nós. Quem não é igual a mim nem sequer ocupa um lugar nos meus pensamentos...
E falando de liberdade, esta sociedade não é livre. As pessoas não são livres. Desde crianças, são treinadas para não opor resistência ao sistema opressor sob o qual aprendem a viver, cômodas e inativas. Desde sempre há o controle do pensamento. Os meios de comunicação, e isto não é novidade, são escolas de conformismo, ilusões vendidas ao povo nas novelas, nos comerciais que insistem em que comprar certa coisa, se inscrever em tal outra é o caminho da felicidade. E a igreja, em lugar de ser um ente libertador nesta sociedade louca, é mais um ente opressor, alienante, que impede às pessoas de pensar, as coloca sob o medo eterno do juízo de Deus, do juízo do "irmão, da exclusão (pelo menos nas igrejas batistas o membro pode ser excluído se cometer algum "pecado mortal", geralmente engravidar [enquanto isso muitos hipócritas, mentirosos e caluniadores assistem tranqüilamente os cultos...]).
Onde estão as igrejas filhas de Deus, proclamadoras da mensagem de igualdade e liberdade de Jesus Cristo? Estão ocultas em baixo de tantas doutrinas, de tantos ritos vazios, de tantas liturgias estáticas... Onde está o povo de Deus que quer mudar esta sociedade? Está reclamando as bençãos de Deus, o qual tem a OBRIGAÇÃO de fazer milagres e encher de dinheiro a todas as pessoas que peçam, e que assistam aos cultos de certas igrejas... Onde estamos, como cristãos, e sobretudo como seres humanos, neste mundo utópico de falsa igualdade, falsa liberdade, falsa humanidade?