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1 de outubro de 2011

Ler a Bíblia Sem Óculos

Esta semana ouvi alguém falar: "Vocês podem ver que eu tenho a paciência de Jó...". Eu achei engraçado. Não por quem falou, mas pela expressão em si, que é muito conhecida, pois me lembrei do texto de Jó, que li faz não muito tempo. É engraçado que as pessoas achem que Jó é um exemplo de paciência. Paciente, Jó? Aonde?! Jó reclama do dia em que nasceu, reclama do que lhe aconteceu, chama Deus a um confronto para que lhe explique a razão das suas desgraças. Ele não é um sujeito passivo que aceita calmamente a dor da perda de tudo o que tinha e as críticas dos seus amigos, pelo contrário, ele afirma sua inocência e reclama do que lhe está acontecendo. Não há nada no texto que exorte à paciência em lugar nenhum. Jó não fala de paciência, mas de sofrimento e da sua causa, e no final o texto não consegue explicar a existência do sofrimento. Então, de onde saiu da expressão "paciente como Jó"?
Eu acho que é uma questão de não ler realmente os textos bíblicos. As pessoas estão tão acostumadas a ler a Bíblia da forma como foram ensinadas que não param para pensar no real significado do texto, no que o autor quis dizer, às vezes até em textos absolutamente simples eles não enxergam o sentido do texto. Um pequeno exemplo, muito simples, se encontra no mesmo livro de Jó, na parte onde ele fala que há esperança para as árvores cortadas: "Uma árvore tem esperança: mesmo que a cortem, volta a brotar e não deixa de lançar rebentos; ainda que envelheçam suas raízes na terra e o toco esteja amortecido entre torrões, ao cheiro da água reverdece e produz folhagem como planta jovem" (Jó 14,7-9). Até ai o texto é bonitinho, e as pessoas o pegam para falar de como a gente tem esperança em Deus e tudo o mais, até fizeram uma música em cima dele. Porém, ninguém se toma a moléstia de ler o texto inteiro (e se leem, não registram no cérebro o que o texto está dizendo), cujo sentido é totalmente oposto ao uso comum que se dá a esses versículos. Jó está afirmando que até as árvores têm esperança, mas que para o homem não há esperança nenhuma, que o fim do homem é a morte e ponto final (ver versículos 10-13). Ou seja, tudo fica bem no final para as arvorezinhas, mas nós, humanos, estamos ferrados mesmo! Até hoje não ouvi ninguém falar dessa parte do texto de meu querido amigo Jó.
E assim as coisas vão, e as pessoas gostam de pegar a Bíblia e dizer que ela é Palavra de Deus e tudo o mais, mas não a usam toda, não param para pensar no que está escrito nela. Em lugar de pegar a Bíblia e estudar o que ela tem a dizer, pegam sua tradição, o que eles acham que a Bíblia diz e pronto. Para mim isso não é sério. Basear na fé em pedaços de Bíblia não me parece sério. Dizer que a Bíblia é homogênea é tirar sua riqueza, a personalidade, a opinião de cada autor da Bíblia. É muito bonito uma pessoa ser sincera na sua fé, e por isso acho injusto não lhe ensinar a pensar a Bíblia, a ler realmente a Bíblia. A maioria de pessoas nas igrejas são papagaios, repetindo o que aprendem na EBD, o que aprendem com seus líderes. E se alguém chega pensando diferente, meu Deus! É heresia, é pecado, é coisa do capeta! É uma coisa absurda. É como usar pedaços dos salmos para afirmar que Deus nos cuida se formos justos. Tudo bem, sim, Deus nos cuida, ele é bom conosco, isso diz um texto. Mas na mesma Bíblia que há salmos afirmando isso, também encontramos Jó, Eclesiastes, que afirmam que o sofrimento é independente de sermos ou não justos. Contradição? Joguemos a Bíblia no lixo? Isso diriam alguns, espantados, pois foram treinados a acreditar que a Bíblia não se contradiz. Mas é simplesmente que o autor de Eclesiastes pensava diferente do autor do salmo, o qual segue a linha conhecida como "Deuteronomista", que afirma que o justo se da bem e o mau se ferra. Autores como o de Eclesiastes e Jó pararam para pensar e ver o mundo em que viviam, e perceberam que o que acontecia na vida real não condizia com o que lhes era ensinado. Hoje em dia o seu ponto de vista deveria ser também ensinado, não ocultado nas teologias marmorizadas que pegam a Bíblia como uma coisa de sentido único. 
Há muitas histórias na Bíblia que diferem do pensamento que se construiu em cima da Bíblia. Há salmos que reclamam com Deus, há mortes, há injustiças justificadas divinamente, há muita, mas muita humanidade. Jó é um livro humano, que mostra a dor do sofrer. Eclesiastes é humano, pessimista, desesperado. Há profetas que reclamam desses reis que em Reis e Crônicas seguem o coração de Deus. A Bíblia não narra uma história de mão única. E muitos dos seus sentidos ficam ocultos nas tradições, nas leituras cegas que as pessoas fazem. E assim se perde bastante da sua riqueza. Até quando? Quando as pessoas começarão a ler realmente o que está escrito, tirando o óculos da tradição que receberam um dia?  

31 de março de 2010

Velha... Espírita???

Deixando de lado o que está acontecendo no seminário, a terrível situação na qual nos encontramos e da qual todos esperamos sair sem ter que fechar nosso querido centro de estudos, onde tantos temos aprendido a enxergar a vida desde outro ponto de vista, onde conhecemos tantos companheiros, amigos, professores, rituais, paisagens, tem coisas que passam e que, pela situação geral, estão passando despercebidas.

Primeiro, o estatuto. Tanto o estatuto em si, como a forma como está sendo introduzido entre nós, fazendo a gente engolir um monte de regrinhas puritanas da noite pro dia, querendo "moralizar" o pessoal (como se não beber e fumar fosse sinônimo de moralidade, pureza e integridade), estão sendo demais. Em lugar de criar um senso de unidade, em meio à crise que o seminário enfrenta, dá raiva. A solução não é bater nos alunos. A solução não é tratar as pessoas como crianças pequenas.

Se sabe que muitos dizem que o seminário tem má fama. Mas, como disse um professor, se aqui tem pessoas "que agem errado", não é pelo seminário. Não é um "efeito de perdição" exercido pelo seminário. Elas já vem assim de suas casas, suas igrejas. Quando se mete todo mundo num saco e se diz que todos são um bando de safados, que fazem um monte de coisas erradas, se generaliza. Nem todos são assim. Na verdade, em meus três anos de aluna, não vi ninguém fumando, se drogando nem fazendo todas as coisas que as pessoas que nunca vieram na vida dizem que se fazem aqui.

Em lugar de vir impondo coisas, porque não fizeram uma assembléia? Quando foi que os "representantes dos alunos" perguntaram aos alunos o que eles pensavam? Afinal, todos moramos aqui, seja por vontade ou por necessidade (este é o caso mais comum), e todos queremos que o seminário supere a crise, que melhore, que mais alunos venham.

Pode ser que tudo seja feito com a melhor das intenções. Mas vir empurrando um estatuto em cima das pessoas, fazendo-as assinar sob pena de "ser convidadas a deixar a casa", é demais. Não tem nada de moral. Vira ditadura. E para mim a solução não é a ditadura. Não é o fanatismo. Claro, há que estabelecer regras. Mas acho que é melhor fazer isso unidos. Estamos ou não no mesmo barco?

Uma última coisa. Uma coisa que ouvi. No momento, por respeito, e cansaço, o unico que fiz foi ficar olhando pra quem disse isso, quase como se o que ouvi não tivesse sido dito. Mas foi. E foi absurdo. Dizeram-me que no futuro (espero que haja, um futuro), não se usará mais a palavra "velha" para nomear a/o colega de quarto. Não porque é falta de respeito, não porque é uma palavra feia. Não. Uma tradição de mais de 100 anos deve mudar porque quem disse isto pensa que quando dissemos velha estamos invocando espíritos. Espíritos!! Acaso aqui tem alguém que pratica espiritismo? Tem mães de santo entre nós? Eu não compreendo como se pode enxergar uma tradição inocente e engraçada dessa forma. Ah, fala sério! Agora temos que procurar uma palavra "melhorzinha"? Com tudo o que há para ressolver, ainda há tempo para besteiras deste tipo! Repito: Fala sério!