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24 de novembro de 2011

Menina, Mulher e a Perda do Auto-respeito

Às vezes acho que o mundo está virando de cabeça para baixo e ninguém percebe. E quem percebe se enfia na cabeça que a solução é se fechar ao mundo e viver numa redoma de cristal, que se chama fé, igreja ou o que seja. E enquanto isso, o mundo continua virando. Nestes dias vi no Facebook uma dessas postagens prontas, e achei interessante. Ela dizia: "As mulheres ficam esperando pelo seu príncipe encantado, mas não se preocupam em se comportar como princesas". A afirmação é absolutamente verdade. Hoje em dia as mulheres estão se comportando de formas absurdas. 
Me pergunto se foi para isso que as mulheres do passado recente lutaram, se foi para isso a libertação feminina. Agora tenho TV a cabo, e uma das coisas que gosto de assistir são vídeos musicais. Porém, ultimamente os vídeos tem me deixado estarrecida. Eu sei que desde sempre mulheres rebolando com poucas roupas foram usadas para vender. Mas agora está demais. Além das letras horríveis das músicas, que só cantam coisas como "me morda", "venha me pegar", "estou nem ai se saio com muitos caras", "vamos transar esta noite" e "vou te seduzir", as cantoras estão competindo sobre quem exibe mais o corpo. O que me deixou mais chocada foi ver meninas mal saídas da adolescência ou ainda apenas entrando nesta (como a filha do Will Smith) cantando que vão pegar o homem, que vão trair o homem, que são livres de quebrar o barraco e fazer o que bem entendem, quase sempre sexualmente falando. A liberdade duramente conquistada virou libertinagem.
O problema é que fazendo isso a mulher está se degradando. Está ainda concordando com a mentalidade machista de mulher-objeto, mulher que se vende como um produto na vitrine. Do tipo: se não estou gostosa, ninguém me pega. Que não haja mal-entendidos. A mulher que ama a si mesma se cuida, se arruma. Simplesmente por gostar de si mesma. E o auto-respeito, então? Parece que as mulheres procuram que os homens as respeitem e as tratem como devem ser tratadas, mas vivem demonstrando que não se respeitam nem um pouco, vendendo baratos os beijos, que dão a qualquer desconhecido em qualquer boate, isso para não falar do próprio corpo. 
Não estou pregando aqui o vestir-se de freiras, ou sei lá que puritanismo extremo. Simplesmente o simples bom gosto que as mulheres têm que ter quando se vestirem, e na forma de se comportarem. Elas têm que lembrar que valem muito, que não são objetos para passar pela vida de mão em mão, exibindo seus atributos para chamar a atenção, deixando que as tratem como lixo. Já bastante temos com a indústria da música, com a televisão, com a publicidade que ainda passam a imagem da mulher burra, loira e gostosona que só serve para mostrar o peito e a bunda para a felicidade masculina. Já temos bastante com a luta que as mulheres têm para conseguir um salário digno, para superar o machismo numa sociedade que ainda é extremamente machista. Já temos bastantes mulheres filés, frutas e outros comestíveis, que, pelo menos para mim, são vergonhosas. As mulheres devem se respeitar um pouco, caramba! Para não terminar nos braços de caras como o Enrique Iglesias, que canta "eu vou te amar esta noite (leia-se transar com você), você conhece minha fama, sabe como eu sou mas mesmo assim está afim de mim", num vídeo que mostra que o amor dele dura menos de uma noite, depois de uma rapidinha ele já partiu para outra. E as pessoas ouvem isso e acham a música o máximo...
E o pior é que como as coisas estão, a infância das meninas está acabando. Desde crianças são instruídas a comprar maquiagem (vejam-se algumas propagandas de maquiagem em canais infantis) para conquistar "o gatinho dos sonhos". Meninas que nem sabem lavar a calcinha, como diria minha mãe, que deveriam estar pensando em brincar e curtir a brevidade da infância, se preocupam com saltos, maquiagem, roupa ousada, chapinha no cabelo, unhas feitas, sem falar nas fofocas dos famosos e em quem delas já começou a namorar. Meninas que vêem garotinhas como elas rebolando nos clipes musicais e falando que vão fazer o cara "pirar" por elas. Misericórdia! 
Este mundo está cada vez mais maluco, e os valores estão sendo jogados no lixo à toa. E no meio disso tudo há meninas crescendo acreditando que no mundo só se pode viver se se é a mais bonita, a que mais fica com um e com outro. Afinal, agora somos livres de fazer o que queremos. Só que uma coisa é liberdade, e outra libertinagem. E a libertinagem não machuca ao próximo, machuca ao libertino. Cedo ou tarde. 
Graças a Deus as mulheres atuais temos mais liberdade com relação às nossas avós. Graças a Deus podemos pensar por nós mesmas e agir por nós mesmas, e sermos independentes. Vamos continuar a desperdiçar nossa liberdade agindo como vagabundas, gritando ao mundo que só servimos para rebolar, vender produtos e pegar homens? A mulher é muito mais do que isso!! 


P.S. Uma cantora muito boa que não anda ensinando a bunda, e é maravilhosa, é a Adele. Todas deviam seguir o exemplo dela...

1 de outubro de 2011

Ler a Bíblia Sem Óculos

Esta semana ouvi alguém falar: "Vocês podem ver que eu tenho a paciência de Jó...". Eu achei engraçado. Não por quem falou, mas pela expressão em si, que é muito conhecida, pois me lembrei do texto de Jó, que li faz não muito tempo. É engraçado que as pessoas achem que Jó é um exemplo de paciência. Paciente, Jó? Aonde?! Jó reclama do dia em que nasceu, reclama do que lhe aconteceu, chama Deus a um confronto para que lhe explique a razão das suas desgraças. Ele não é um sujeito passivo que aceita calmamente a dor da perda de tudo o que tinha e as críticas dos seus amigos, pelo contrário, ele afirma sua inocência e reclama do que lhe está acontecendo. Não há nada no texto que exorte à paciência em lugar nenhum. Jó não fala de paciência, mas de sofrimento e da sua causa, e no final o texto não consegue explicar a existência do sofrimento. Então, de onde saiu da expressão "paciente como Jó"?
Eu acho que é uma questão de não ler realmente os textos bíblicos. As pessoas estão tão acostumadas a ler a Bíblia da forma como foram ensinadas que não param para pensar no real significado do texto, no que o autor quis dizer, às vezes até em textos absolutamente simples eles não enxergam o sentido do texto. Um pequeno exemplo, muito simples, se encontra no mesmo livro de Jó, na parte onde ele fala que há esperança para as árvores cortadas: "Uma árvore tem esperança: mesmo que a cortem, volta a brotar e não deixa de lançar rebentos; ainda que envelheçam suas raízes na terra e o toco esteja amortecido entre torrões, ao cheiro da água reverdece e produz folhagem como planta jovem" (Jó 14,7-9). Até ai o texto é bonitinho, e as pessoas o pegam para falar de como a gente tem esperança em Deus e tudo o mais, até fizeram uma música em cima dele. Porém, ninguém se toma a moléstia de ler o texto inteiro (e se leem, não registram no cérebro o que o texto está dizendo), cujo sentido é totalmente oposto ao uso comum que se dá a esses versículos. Jó está afirmando que até as árvores têm esperança, mas que para o homem não há esperança nenhuma, que o fim do homem é a morte e ponto final (ver versículos 10-13). Ou seja, tudo fica bem no final para as arvorezinhas, mas nós, humanos, estamos ferrados mesmo! Até hoje não ouvi ninguém falar dessa parte do texto de meu querido amigo Jó.
E assim as coisas vão, e as pessoas gostam de pegar a Bíblia e dizer que ela é Palavra de Deus e tudo o mais, mas não a usam toda, não param para pensar no que está escrito nela. Em lugar de pegar a Bíblia e estudar o que ela tem a dizer, pegam sua tradição, o que eles acham que a Bíblia diz e pronto. Para mim isso não é sério. Basear na fé em pedaços de Bíblia não me parece sério. Dizer que a Bíblia é homogênea é tirar sua riqueza, a personalidade, a opinião de cada autor da Bíblia. É muito bonito uma pessoa ser sincera na sua fé, e por isso acho injusto não lhe ensinar a pensar a Bíblia, a ler realmente a Bíblia. A maioria de pessoas nas igrejas são papagaios, repetindo o que aprendem na EBD, o que aprendem com seus líderes. E se alguém chega pensando diferente, meu Deus! É heresia, é pecado, é coisa do capeta! É uma coisa absurda. É como usar pedaços dos salmos para afirmar que Deus nos cuida se formos justos. Tudo bem, sim, Deus nos cuida, ele é bom conosco, isso diz um texto. Mas na mesma Bíblia que há salmos afirmando isso, também encontramos Jó, Eclesiastes, que afirmam que o sofrimento é independente de sermos ou não justos. Contradição? Joguemos a Bíblia no lixo? Isso diriam alguns, espantados, pois foram treinados a acreditar que a Bíblia não se contradiz. Mas é simplesmente que o autor de Eclesiastes pensava diferente do autor do salmo, o qual segue a linha conhecida como "Deuteronomista", que afirma que o justo se da bem e o mau se ferra. Autores como o de Eclesiastes e Jó pararam para pensar e ver o mundo em que viviam, e perceberam que o que acontecia na vida real não condizia com o que lhes era ensinado. Hoje em dia o seu ponto de vista deveria ser também ensinado, não ocultado nas teologias marmorizadas que pegam a Bíblia como uma coisa de sentido único. 
Há muitas histórias na Bíblia que diferem do pensamento que se construiu em cima da Bíblia. Há salmos que reclamam com Deus, há mortes, há injustiças justificadas divinamente, há muita, mas muita humanidade. Jó é um livro humano, que mostra a dor do sofrer. Eclesiastes é humano, pessimista, desesperado. Há profetas que reclamam desses reis que em Reis e Crônicas seguem o coração de Deus. A Bíblia não narra uma história de mão única. E muitos dos seus sentidos ficam ocultos nas tradições, nas leituras cegas que as pessoas fazem. E assim se perde bastante da sua riqueza. Até quando? Quando as pessoas começarão a ler realmente o que está escrito, tirando o óculos da tradição que receberam um dia?  

15 de maio de 2011

Literatura policial e a destruição do assassinado

Nestes últimos tempos não tenho escrito muito aqui. Tenho passado o tempo de desempregada lendo, e lendo bastante, graças à biblioteca daqui, que, mesmo não tendo muitos livros, tem bastantes volumes interessantes. Depois de quatro anos lendo textos acadêmicos dei um descanso e passei a ler romances. Romances policiais, de amor, suspense, comédia, enfim, estou lendo à vontade.
De todos os livros que eu gosto, eu desfruto bastante o gênero policial e de suspense. Na minha vida de leitora eu tenho lido livros policiais de diversos tipos. Os clássicos, tipo Agatha Christie e Sherlock Holmes, os modernos, que parecem um CSI, os sangrentos, os que combinam humor. E devo dizer que gosto mais dos livros tipo Agatha Christie. Nada contra os livros de suspense modernos, onde os policiais esperam as provas forenses, os patólogos fazem as próprias pesquisas, tipo Kay Scarpetta, e onde os detetives se apoiam bastante nas provas de DNA e afins. O negócio é que o leitor não participa do desenvolvimento da obra. Ele simplesmente lê, esperando para saber a identidade do assassino quando o autor decidir, depois de ter descrito as provas, os parentescos estabelecidos pelo DNA e o tipo de fibras que foram achadas na cena do crime. Já nos livros da Agatha Christie o leitor recebe uma série de pistas, que, colocadas no lugar pelo grande Poirot, por Miss Marple ou algum outro dos personagens da Christie, dão como resultado a identidade do assassino. E o leitor pode tentar descobrir, pretender saber ou adivinhar quem é esse assassino tendo como base essas pistas. Não que a gente descubra. Eu pessoalmente às vezes soube quem foi, mas não é algo que aconteça sempre. Mas é muito legal se sentir parte da obra, como sabendo que a Christie escreveu o livro como um desafio, cada página dizendo nas entrelinhas "tudo está aqui, agora junte os pedaços". Às vezes até Poirot fala isso para seu amigo Hastings. Por isso, devo dizer que livros policiais como os da Agatha Christie, são dos que sempre vão estar em auge. Pelo menos essa é minha opinião.
Os outros livros são interessantes. Tem alguns que são séries, como a já mencionada Kay Scarpetta, criação de Patricia Cornwell. Os primeiros livros são muito interessantes, desses que prendem o leitor do início ao fim, apesar de saber que no final ela sempre vai ser perseguida pelo criminoso e este vai ser preso ou morto. Mas depois os romances passam de livro policial a livro rosa, com as aventuras amorosas da patóloga e da sua sobrinha gay em primeiro lugar, e os crimes e situações, cada vez mais absurdos, em segundo. P.D. James escreve outra série, brilhante e às vezes melancólica (e quem não gosta de melancolia quando bem colocada na trama?) de livros detetivescos, com o inspetor chefe Adam Dalgliesh.
Eu tenho lido muitos livros policiais, alguns memoráveis, alguns meio devagar, desses que fazem minha irmã parar na segunda página por falta de ação, outros muito cômicos, outros tão sangrentos que chega a dar repulsão ou ainda alguns clássicos (além da Christie não se pode esquecer Conan Doyle). Os livros policiais são parte importante do meu repertório de leitura. Eles me entretêm, e também me fazem pensar um pouco. Mortes violentas não acontecem, infelizmente, somente nos livros ou na tv. O mundo está cheio de violência e de insegurança, de pessoas doidas, cruéis, cheias de ódio contra o próximo ou simplesmente gananciosas ou passionais, e há mortes. Além, claro, dos mortos decorrentes de guerras. E uma coisa que eu penso ao terminar de ler um romance policial é que essas vidas, das pessoas assassinadas, foram truncadas. Seus sonhos, suas metas, desejos, tudo foi roubado. Claro que são só personagens de um livro. Mas no mundo real há muitos que são mortos. E suas vidas, com isso, são roubadas das suas possibilidades. Uma pessoa com sonhos, expectativas, lutas, que em determinado momento perde a vida, perdendo com isso tudo o que poderia ser e fazer, tudo o que poderia realizar no mundo. E filhos são roubados dos pais, maridos das esposas e vice-versa, parentes, amigos. O assassinato é a destruição total do ser humano. E isso me deixa uma certa tristeza pesando no coração. E penso na minha Colômbia, onde tantos morrem a cada dia, por causa da guerra, por causa da injustiça, por causa da intolerância.
Para terminar, uma última reflexão: os livros policias são uma distração, um desafio a descobrir o culpado, uma descarga de adrenalina. Seria tão bom se assassinato fosse só isso. Mas na vida real não tem nada a ver com distração: significa dor, significa destruição. E não posso entender como alguém, que se proclama civilizado, pode sair às ruas a comemorar o assassinato de um ser humano. Mesmo quando o morto é um "terrorista", mesmo que ele mesmo tenha sido um assassino. É desumano vitorear a morte. É absurdo. E não leva a nada, só criando um ciclo vicioso de ofendidos e vingadores. Quando as Torres Gêmeas cairam, muitos árabes celebraram a morte de inocentes. Quando Bin Laden morreu, muitos americanos e outros celebraram sua morte. E o único que ficou foi mais dor, mais mortes, mais lágrimas, e agora o Paquistão sofreu um atentado, e o mundo continua seu ciclo de violência e de dor. E a hipocrisia nessa (e muitas outras questões) está aí, mas ninguém fala sobre isso. Porque Bin Laden matou muitos, mas os americanos mataram muitos outros, mesmo se proclamando os mocinhos da história. Porém, ninguém é inocente quando se fala de morte.

10 de novembro de 2010

De Ovelhas e Costumes

Sábado passado assisti ao vídeo de uma pregação sobre família e casamento. Algumas coisas do que ele falou eu gostei, outras não. Nem concordei com tudo o que ele falou. Mas o que me fez pensar foi um fato que achei muito engraçado. Por cada coisa que ele falava, dizia: "Digam amém!" E o pessoal da igreja, unânime, respondia: amém!. Tudo eram améns e aleluias. O que o pastor dizia era acatado na hora. 
Eu não sei se todo mundo falava amém quando era pedido para fazê-lo. Só sei que me fez pensar que na igreja as pessoas tomam mesmo atitude de ovelhas. Pouco importava se o que o pastor estava falando não tinha graça, era ofensivo ou generalizado. As pessoas riam, achavam legal e totalmente verdadeiro. Claro, e tudo era amém. "A mulher tem mentalidade de Barbie. Amém, irmãos!""Amém!!". E percebi que disfarçar a mensagem de palavra de Deus é algo muito, muito perigoso. Faz as pessoas deixar de pensar. Vão atrás do pastor como ovelhinhas, sem parar para pensar se é o não verdade, se é ou não relevante, se é ou não edificante para a vida de cada um. Estamos tão acostumados a entrar na igreja e achar que tudo é Deus, que esquecemos que quem prega a palavra é um ser humano, que, sim, acreditamos esteja sendo usado por Deus, mas que tem suas ideologias, costumes e até preconceitos, todo o qual se evidencia nas suas mensagens.
Não quero aqui falar contra os pastores e a pregação. Que tem pastores safados por ai, tem, assim como tem pastores maravilhosos que vivem suas vidas na certeza de que querem cumprir a vontade de Deus. Aqui não quero falar dos pastores. Quero falar das ovelhas.
Ovelha é um bicho burro, que deve ser guiado em tudo, alimentado, cuidado, que não sabe se virar sozinho. Desde que eu soube como eram as ovelhas me incomodou a comum comparação entre os fiéis e as ovelhas. Mas assistindo esse vídeo percebi como é perfeita a comparação. 
O nosso costume na igreja é ser ovelhas. Deixamos de pensar, de questionar, de analisar. A Bíblia é um livro ao alcance de todos, segundo Lutero, mas ainda achamos que a unica chave de interpretação certa é a do pastor. O que o pastor fala, portanto, deve ser verdade. E ai, mesmo que o pastor tenha falado algo muito questionável, todo mundo grita glórias, aleluias e améns. E a ovelha segue ai, querendo ser levada pelo cabresto, sem parar para pensar no que ouviu.
A igreja deveria ser comparada às ovelhas no sentido do cuidado de Jesus por nós. Era o sentido em que os reis do Antigo Testamento falavam. Tecnicamente eles eram os pastores que cuidavam das ovelhas-povo. Que afinal, não foram pastores e não cuidaram nada mesmo, explorando o povo cada um à sua maneira. E claro, às vezes em nome de Deus (por isso não gosto de Ezequias e sua reforma "justa"). Aliás, a igreja não deveria ser comparada às ovelhas. Elas são bichos estúpidos, enquanto o ser humano que faz parte da igreja tem um cérebro dentro do crânio. As pessoas da igreja deveriam parar para pensar, refletir, questionar. o pastor não é Deus. Sua palavra não é infalível. E não é coisa de sair agora questionando tudo. É simplesmente não ouvir automaticamente, é pensar no que está sendo dito. Assim até a mensagem se aproveita mais, pois prestamos atenção no que está sendo falado. Questionar, se perguntar se é assim mesmo. Na Bíblia há um exemplo disto, os tais bereanos. Eles questionaram Paulo e foram ver o que ele tinha dito na sua Bíblia. Que eles são elogiados porque gostaram do que Paulo falou, e o que teria acontecido se não tivessem concordado, é assunto para outra ocasião. O importante é que eles não aceitaram de primeira o que ele tinha falado. Eles pesquisaram sobre o assunto.
A gente fala de estudar a Bíblia, fala que cada um é sacerdote e tudo o mais. Mas, na prática, a gente repete nos estudos o que aprendeu na doutrinação inicial, a Bíblia é lida com o olhar que é indicado pelo líder. Não paramos para pensar, para refletir sobre o que estamos lendo. Não paramos para ver que em Gênesis não há como estar Jesus, nem para ver que o serpente do jardim não tem inveja de Eva (o texto não menciona tal coisa, que foi invenção de Irineu...), e muito menos se fala no texto que Eva estava merodeando sempre a árvore ou que estava só. A gente vê com olhos de ovelha, e o que o pastor falou é a unica interpretação válida. E assim, a gente se acostuma a não pensar, a gente se acostuma ao automático, e as igrejas se enchem de ovelhas que falam amém a qualquer coisa que seja dita desde um púlpito. E eu não concordo com isso! 

2 de junho de 2010

Da Saudade Quando Vem Às Vezes

Estes dias minha mãe me disse que minha vó, que está chegando da Colômbia neste mês para o meu casamento, perguntou o que eu queria que ela trouxesse. No momento me deu branco, como sempre me acontece nessas ocasiões. Mas eu fiquei pensando, pensando em tudo aquilo que há tanto tempo não vejo, não cheiro, não como. Muitas coisas que só Colômbia tem, muitas coisas boas para comer, para se ver, para cheirar.

Eu escrevi à minha vó a lista do que quero que ela traga. Mas enquanto espero, fico aqui com a saudade, que acordou ao me lembrar da minha terra, da minha vida lá, de tudo o que aconteceu nesses 17 anos em que não fui estrangeira no mundo, e me lembrei da minha escola, que, comparada com o modelo que tenho aprendido do que é escola aqui, é muito boa, dos meus amigos, das festas à tarde depois da escola, dos cinemas que pegava com minha irmã enquanto meu pai e meu irmão estavam viajando visitando meu avô. Me lembrei dos momentos ruins em que quase ficamos doidos, meus irmãos e eu, e de tudo o que fazíamos quando éramos crianças, como ir àqueles acampamentos de férias nos quais não me dava bem com as meninas da turma, nos quais aprendi a fazer velas e desfrutei bastante a piscina, ou quando as novelas na Colômbia ainda eram algo que valia a pena ser visto, e todos ficávamos juntos para assistir "Betty la Fea" ou "Pecados Capitales"...aqueles tempos em que pensava que ser grande era uma coisa para acontecer em um futuro tão remoto!

E é que a saudade, quando vem, vem com tudo. Não só traz a lembrança das coisas que se queria poder ver, mas também dos momentos vividos, dos problemas passados, das lágrimas choradas e até dos gatos perdidos (que foram dois, os dois morreram por andar na rua quando não deviam, graças à minha mãe e sua frase "coitados, eles sempre fechados em casa...").

É bom se lembrar das coisas. É bom se lembrar de onde viemos, lembrar as ruas pelas que andamos, os momentos simples que vivemos e que, no momento de ser vividos, pareciam tão complicados. É bom se lembrar da adolescência, com as crises de identidade, quando não se encaixava em nenhum grupo estabelecido (até hoje creio que não mudou, sempre tem os nerds, aqueles "bonitos", aqueles "populares", depois vem o resto... que era onde eu estava), quando se pensou que perder uma matéria da escola era o fim do mundo. Ah tempos bons, quando os problemas que se enfrentavam eram tão simples! Quando ainda se pensava que os pais resolviam as dificuldades das nossas vidas e que eles eram os responsáveis pelas nossas necessidades. Bons tempos... quando o mundo parecia uma coisa tão alheia e as injustiças dos poderosos não estavam nos pensamentos centrais da vida... quando o importante era saber o que se fazer depois da escola.

E Colômbia. As férias em Melgar, as piscinas, o "raspado", a manga verde com mel e limão, o café Dolca, o "roscón" de doce de leite, queijo e goiabada... ir aos centros comerciais, o Metrópolis, o Cafam, simplesmente para conversar com as amigas e passar o dia... Bogotá, com seus Monserrate e Guadalupe, com o centro histórico, com a "Plaza de Bolívar", cheia de pombos. E os ônibus (que na Colômbia são chamados de buseta, sem nenhuma vulgaridade na palavra), as bicicletas, o "Transmilenio". E a vida em casa, fazer os deveres de casa, lavar as louças, levar o cachorro a passeio. E meus irmãos. E meus pais. E minha vó. E meu quarto, com meus livros, minha cama, minha coberta de sempre, meu poster de Garfield e meu abajur de flores. O cotidiano que, visto como passado, assume um ar saudoso que não se pode mais deixar de respirar. Colômbia é um pais muito bom. Com gente boa, gente ruim, gente feliz, gente triste. E muita dor no coração de cada um, dor pela pátria que ainda perde seus filhos, ainda se banha de sangue. Creio que essa dor é característica dos colombianos, e de todos aqueles outros povos que vivem num pais em guerra.

Sentir saudades é uma coisa boa. É uma coisa que faz valorar o que se viveu de bom, revisar o que se viveu de ruim, por se tem alguma lição, já sem sentir a dor que se experimentou na ocasião, lembrar dos amigos e dos parentes, lembrar essas coisinhas que no tumulto de pensamentos do dia-a-dia se guarda no caixão do esquecimento.

E quando a saudade chega, é bom lhe abrir a porta, e deixar que ela nos leve da mão por todas aquelas coisas que fazem parte da nossa passada existência. Faz bem lembrar da própria terra, da própria história.

8 de maio de 2010

Quando se diz que a razão mata a fé...

Não entendo por quê as pessoas ainda fazem esta distinção. Muitos acham que se pensam um pouquinho diferente do que é ensinado na igreja estão ofendendo a Deus, renegando Jesus ou virando ateus. Muitos dizem que se aprofundam muito no conhecimento perdem a base da fé. Eu não entendo. Não entendo que se oponha a fé à razão, que se diga que ser "muito racionalista" nos faz perder Deus de vista. Para mim as duas coisas fazem parte do ser humano, e são as duas importantes. Deus nos fez místicos. E nos fez pensantes. Já desde o início ele nos deu a liberdade de escolha. Por quê então o conflito quando eu penso algo que os outros não pensam?
A liberdade está dentro do ser humano. Mesmo que por muitos meios os poderosos tenham tentado tirar esta liberdade, e em muitas ocasiões tenham conseguido submeter as consciências ao que eles queriam, a liberdade não tem sumido. Só fica sufocada. E a primeira liberdade que temos é a de pensamento. Que alguém diga que temos que nos submeter a determinadas doutrinas e ordens, porque sim, ou porque senão vamos ao inferno ou ofendemos Deus, é pecado. O pecado daquele que falou, que se acha Deus para determinar o que os outros devem fazer. Claro que deve haver, no mundo, uma ordem. O ser humano não pode viver no caos. Mas o homem não deve ser obrigado a atuar de determinada forma atendendo aos desejos de alguém mais. Ele deve fazer o que deve fazer, tendo consciência do que faz.

A razão não se opõe a Deus. Na verdade, foi Deus quem nos deu cérebro, ele nos deu a capacidade de questionar. Se Deus me fez assim, porque devo sufocar os meus questionamentos e me submeter ao que me dizem que deve ser o mundo? Desta forma, não vivo o mundo com meus sentidos, mas vivo-o por meio do que os outros me dizem que devo viver.

Pensar é arriscado. Quem questiona arrisca contrariar as pessoas. Ser achado maluco, ou herege. Quem tem dúvidas, sobretudo em questões religiosas, é tido como alguém que não tem fé. E ai é onde entra a definição errada do que é fé. Quando se pensa em fé se pensa em "crer sem ver", "saber que algo vai acontecer antes que aconteça", "esperar em Deus". Tudo bem. Quando temos fé sabemos que Deus opera mesmo em situações que não entendemos ou às quais não vemos solução. Mas a fé não mede o conhecer. Que eu questione alguns dogmas ou doutrinas da igreja, que duvide de algumas coisas que ouço por ai nas igrejas ou das pessoas, que eu não consiga entender mais outras coisas que teimam me ensinar e dizer que "é assim e basta" não significa que deixei de crer em Deus. Significa que estou usando minha liberdade de pensar. Eu sou livre de questionar dogmas, doutrinas, regras culturais, etc, não por simplesmente querer contrariar, mas porque tudo isso é construção humana, e como humano insuficiente para eu entender algumas coisas, insuficiente para apagar minhas perguntas, ou satisfazer minha consciência. É a possibilidade que tenho de procurar algo melhor. Um exemplo. Eu não concordo com a sociedade machista ocidental, sobretudo a brasileira. No Brasil ainda há muita desigualdade entre os gêneros. Isto não me faz feminista. Não gosto do termo feminista porque não acho que nós mulheres sejamos o melhor do melhor, e que os homens sejam uma droga. Simplesmente acho que a sociedade deveria pôr cada um em seu lugar, um ao lado do outro, um complementando ao outro. Não nascemos separados. Atendendo ao mito da criação, Deus nos fez juntos, varão e fêmea, para juntos construir um mundo, cuidar das outras espécies, trabalhar em parceria. Não submetendo a vontade do um ao outro, não tratando o outro como ser inferior. Eu questiono, e sempre questionarei, atitudes machistas, fora e dentro da igreja, como o tratamento da mulher como simples objeto sexual, como simples dona de casa, como simples entretenimento do homem. Na igreja, não admito que se defenda, ainda, que a mulher não pode ser pastora. Eu pessoalmente não quero ser tal, mas a mulher que queira bem pode. Por quê não? Que fundamento me dão para dizer que Deus não quer? E se alguém fala em Paulo pode esquecer, que Paulo não é alguém com quem eu concorde muito...

Eu questiono muitas coisas. Mas sei, com a minha razão, que não tenho a capacidade de saber tudo. Até onde eu possa, eu quero entender as coisas que passam ao meu redor. Mas tem muitas, muitíssimas coisas que eu não entendo. Não entendo a trindade. Não entendo por quê o homem faz tanto mal, quando tem dentro de si a capacidade de fazer tanto bem. Não entendo a relação entre as religiões. Estou na tensão de saber que devo respeitar todos os outros, mesmo que pensem e acreditem em coisas diferentes, e saber que não posso, e não quero, abrir mão das minhas convicções. É difícil. Para mim Jesus é tudo o que se precisa. Como fazer com os outros? Não entendo, também, por quê ainda há pessoas que brigam por coisas tão periféricas como o dia de celebração do culto, os ritos, a forma de culto. Não entendo muitas coisas. Minha razão não tem resposta para tudo. Eu preciso de Deus, e minha razão só me dá a consciência disso.

O problema entre a razão e a fé se deu no Iluminismo, que colocou a razão como deusa soberana solucionadora dos problemas do mundo. O homem no centro do mundo, sabendo tudo, fazendo tudo. E depois, o lado irracional deste homem se revelou, matando miles nas colonizações, nas guerras mundiais, nas conquistas. Ainda hoje muitos morrem por causa da irracionalidad do homem. O mundo está em peligro de extinção pela irracionalidade e a ambição do homem. E então as pessoas se voltaram contra a razão, e disseram que a fé é mais importante. Só que não é fé em Deus. É fé no que eles dizem que é Deus. E abrem um manual de teologia sistemática e descrevem Deus, o separam em categorias, por qualidades, atributos e sei lá mais o quê, e dizem que esse é o Deus que devemos seguir. Isto eu questiono. E vou sempre questionar.

É um paradoxo. Eu tenho uma idéia de Deus, que é resultado do que eu tenho vivido (e Deus tem feito grandes maravilhas em mim), que é diferente das outras. E não posso impôr o que eu penso aos outros. Mas também os outros não podem me impôr o que pensam. Paradoxo porque luto pelo que penso.

Este mundo precisa de pessoas que pensem. Pessoas que não aceitem as coisas sem pensá-las, que lutem pelo que pensam e tratem de resolver suas dúvidas. As dúvidas não são pecado. As dúvidas fazem parte do ser humano, um ser limitado cuja razão não encontra as respostas para tudo automâticamente. Duvidar nos faz procurar saber mais, entender mais. E se não entendo definitivamente alguma coisa, trato de encontrar um equilíbrio para viver com essa dúvida. Deus sabe tudo, algumas coisas eu saberei só quando for morar com ele...

Mas a razão não mata a fé. Até a vivifica. Porque eu não tenho fé por ter, eu sei, tomo consciência de que sou um ser limitado, e mais, tomo consciência da minha necessidade de Deus. Mesmo sem entender muitas coisas, posso me relacionar com Deus. Mesmo duvidando, não estou me afastando de Deus. Estou chegando mais perto, e perguntando a ele a resposta. Não que, se posso, não tenha que estudar para tentar chegar a uma resposta plausível.

Dizer que a razão mata a fé elimina uma parte do ser humano indispensável à sua liberdade. Faz com que o homem se reprima e vire um simples receptor de idéias, em lugar de ser um forjador de idéias. Dizer que a razão mata a fé mata, na verdade, a interação do homem com o mundo, o faz acreditar em coisas que foram verdade racional há muito tempo, mas que agora devem ser revisadas. Fecha o homem em um mundo que foi, o aliena do mundo que é. Ter fé não é acreditar cegamente em tudo que se ouve ou se crê saber. Ter fé é saber que mesmo sem entender muitas coisas deste mundo, Deus está conosco. É saber que precisamos dele, com todo o nosso ser, razão incluída.

2 de março de 2010

Proibido pensar?

Há muito tempo não escrevo. Há muito quero escrever, mas não sabia o que. E não sabia como escrever o que tinha na cabeça. São esses bloqueios que dão de vez em quando, quando se pensa em muitas coisas e não se consegue lidar com nenhuma. Como que se juntam todas, se misturam dentro da cabeça, e se negam a sair, claras e limpas, uma por uma.

Muitas coisas estão acontecendo, têm acontecido ao meu redor. Muitas mudanças e incertezas rondam minha vida estudantil. Muitas correrias e preocupações, esperanças e mais correrias, meu futuro próximo (muito, muito próximo, faltam só 3 meses!) casamento. Voltei das férias com muitas coisas rondando por ai...

Inconforme com a impossibilidade de ser eu. Não posso ser como sou nem na minha casa. Não posso me expressar (e trato sempre de ser o mais "delicada" possível ao falar do que penso, para "não escandalizar"), não posso ser sincera nem com aqueles que são mais vizinhos a mim. Não que eu me reduza às minhas opiniões teológicas. Só que a teologia é o que eu estudo. Faz parte de mim, do que eu quero ser, do que eu penso e vivo. Não posso me desligar da teologia quando entro na igreja. Não posso deixar meus pensamentos e opiniões na porta da igreja, só porque dentro dela se dizem coisas diferentes ao que penso. Não que os outros não possam pensar do jeito deles. Mas quando me dizem para me expressar, para ensinar-lhes o que tenho aprendido, é tão esquisito ver as caras de "terror", as expressões de "meu Deus a menina pirou", as frases diretas e a censura indireta (mas muito clara, dava para perceber), é tão incompreensível! Acaso não foram eles mesmos que me enviaram a estudar no seminário?

Dizer que "o seminário virou liberal" não é excusa para aqueles que não quiseram ouvir. E que não querem. Mas se não deixam que eu fale, pelo menos me deixem tranquila no meu canto. Mas não. Ainda por cima tenho que ir no psicólogo porque "o seminário me está deixando mal"! O que eu tenho aprendido me é cada vez mais querido. Muitas coisas tenho visto que confirmam o que aprendi, muitas coisas tenho ouvido para fechar os olhos e os ouvidos e voltar para o que era antes, para onde querem que volte. E mesmo que tenha que lutar, com os outros e sobretudo comigo mesma, para achar um equilíbrio, por fino que seja, nestes meus pensamentos confusos, prefiro esta maluquice confusa àquelas certezas pre-fabricadas que um dia me ensinaram como verdade absoluta.

Mas é difícil. É difícil perceber que virei um bicho raro. Difícil perceber que mesmo minha família me olha de ladinho nas pregações do pastor, para ver se "concordo ou não". Como se eu tivesse as respostas. É esse o problema das pessoas: não conseguem viver com as dúvidas. A dúvida é um buraco negro do qual se foge, sendo preferível morar na casinha feliz das coisas que se aprendeu desde sempre, que se repetem sem possibilidade de mudança. Melhor o conhecimento velho que a incerteza nova. E voltando à minha família, é meio complicado ouvir sua mãe dizer que quando Jesus vir você vai ficar, porque "estás morna, querida". Meio complicado mesmo pensar o que responder, pesar dentro de você mesmo as palavras, para não chocar os outros com a incerteza deste evento... eu não sei. Pode que ele venha. Se vir, seja bem-vindo. Se não, temos uma luta longa para tentar salvar este mundo moribundo que é nosso lar. Que se ele acabar não vai ser obra de Deus, mas nossa.

A igreja é um vício. Eu não posso deixá-la. Eu não posso deixar de gostar de cantar, orar, me reunir com meus irmãos para louvar a Deus (que é, para mim, o propósito original dos cultos), e não posso deixar de "ouvir a Palavra". Só que agora não é como antes. Não é tudo "lindo, maravilhoso, glória a Deus irmão!!!". Agora é uma luta. Luta para não reclamar das músicas sem sentido (pedir chuva, chuva, e para que carambas eles querem tanta água? Aquele negócio de que são metáforas não me satisfaz mais). Luta para não criticar a mulher que fica "ministrando" meia hora entre cada canção. Luta, sobretudo, para não encontrar coisas que não concordo nas pregações do pastor, ou de quem seja. Não que, repito, eu tenha as respostas. A minha não é verdade absoluta para os outros. Mas a deles não deve sê-lo para mim. E o problema é que eles querem que eu volte a engolir o que eles dizem como isso, como verdade absoluta. E também não é que todos os pastores sejam uns pregadores horríveis. Mas o que eles ensinam é o que vem sendo ensinado há tanto, mas tanto tempo, que já quase todo mundo sabe isso de cor. Todos os que tenham um bom tempo de igreja, pelo menos.

E não se quer mudar. Mesmo sabendo que algumas coisas não são assim (eles, muitos deles, passaram pela mesma cadeira de seminarista que eu ocupo atualmente), ou que se poderia dar ums perspectiva diferente dos velhos conhecimentos, eles repetem a mesma velha lição. A desculpa deles é o que mais me irrita. Não é porque é vontade de Deus (seria uma explicação cara de pau, mas nem tanto quanto a outra), mas porque "a igreja não está preparada, eles não estão prontos para saber isso". Mas, por acaso, os líderes não estão ai para ensinar? (e cuidar das 'ovelhas', mas isso é outra coisa) Levam tantos anos, ou mesmo poucos, criam igrejas do zero para que? Para seguir com a mesma coisa! Assim as igrejas nunca vão estar prontas. E isso me irrita. É como dizer que eles são inferiores, pobre povo que não entenderia. Ahh, e nós não, nós somos privilegiados. Temos o conhecimento, sabeos mais do que eles e não queremos lhes ensinar.

Por acaso o seminarista estava preparado quando começou a estudar? Que eu saiba, eu não estava. Mas aprendi. E, na medida do possível, fui assimilando as coisas, tentando encaixar as coisas de uma forma coerente para mim. Há muitas coisas que ainda não encaixam. E tudo está bagunçado. Mas pelo menos eu posso pensar, posso pegar os conceitos, ponderar o que me serve e o que posso deixar de lado. É complicado, porque não é conhecimento humano. Ou é, mas é mais do que isso. Porque mexe com a fé, com aquilo que é Deus, o grande mistério da nossa vida. Não é algo como matemática. Eu uso a matemática, mas ela não me define. A fé define. E é complicado mexer. Mas, para mim, é necessário. Para mim foi bom perceber outras realidades, ver outras caras na velha moeda. Pode ser que não todos possam fazer isso. Mas deveriam lhes dar a oportunidade de tentar.

E então fui silenciada aos poucos. Cada dia se fez mais difícil saber o que falar, o que deixar guardado dentro de mim. E se fez mais difícil saber quem era eu. Eu já não sou o que era quando estava naquela igreja, quando morava com minha família. Eu não era o que sou, não pensava, criticava nem questionava nem a metade do que faço hoje. Estou tentando encontrar um equilibrio, porque acho que a crítica extrema me fecha às possibilidades. Mas não estou conseguindo muito. A crítica vem quase que automática. E o que penso... só Deus para me entender. Tenho tantas perguntas, tantos pontos vazios e peças do quebra-cabeça que não encaixam no lugar, e que muitas vezes nem têm lugar nele... Isto é doloroso. É complicado. É desanimador. Muitas vezes me perguntei se estou errada. Se ofendi a Deus com isso. Se estou sendo, como disse minha mãe, uma incrédula. Mas não posso voltar ao que era. Seja porque, como disse meu professor, a inocência se perdeu. Seja porque os eventos da minha vida e os que acontecem ao meu redor me confirmam que muitas coisas que nos vendem como brancas são na verdade marrom, cinza podre, verde venenoso. Talvez seja uma mistura de tudo.

Só sei que há mais coisas no fundo do que se mostra a primeira vista. E sei que muitas coisas não entendo, muitas coisas eu não sei. Algumas dessas coisas que não sei não me parecem fundamentais para a vida. Como se a existência de Adão e Eva fosse definir quem eu sou! E cada vez que vejo as confusões, as brigas e as condenações que se fazem fundamentadas em negócios desse tipo, vou andando com um pé atrás. Se algum dia eu vou entender tudo? Duvido muito. Só espero entender o fundamental para viver sem enlouquecer. E mesmo que esteja condenada a ir contra a corrente, condenada a viver procurando uma resposta às dúvidas (que no presente me parecem eternas, para sempre sem resposta), prefiro isso. É melhor ser, como minha mamãe disse, racional, analisar as coisas (e ela disse isso em sentido negativo: deixa de ser assim), tratar de entender um pouquinho de todas as loucuras que se encontram neste mundo. Tentar, só. Que esteja certa, isso já é outra história. Só Deus sabe...

28 de outubro de 2009

Adão e a humanidade

A história da criação do homem tem sido usada para muitas coisas. Tem sido usada para legitimar a suposta "superioridade" masculina (porque o homem "foi criado primeiro e a mulher depois"... claro, isto tendo em mente a segunda narrativa da criação, porque na primeira os dois são feitos ao tempo!), para legitimar o domínio do homem sobre a criação, o que lhe dá o direito de fazer qualquer besteira com a natureza... mas ninguém parou (pelo menos que eu saiba, pode ser falta de informação) para pensar no que representa Adão. Não no sentido do responsável pelo pecado da humanidade. Mas pela humanidade em si. O relato diz que todos os povos descendem de Adão. Ele, junto com sua mulher, foram os primeiros seres humanos a morar na Terra. Deles descendem todos.

Historicamente, é muito difícil conceber isto como verdade. Mas simbolicamente esta afirmação é muito importante. Todos descendemos de Adão. Cada ser humano é filho deste casal primordial. Se isto é assim, então todos somos iguais. O que significa que a "superioridade racial" é uma construção cultural, que defende o eu desprezando o outro. Por meio dela é mais nobre ser de uma determinada cor, morar em determinado pais, ter determinados costumes. Os outros são "o povinho", os inferiores, cuja cor, cultura e até pais são nada comparados com os do pessoal "nobre".

Assistindo um documentário percebi quanto há de absurdo no racismo. O documentário falava da Colômbia, meu pais, enfocando as diferentes raças e povos que nele moram. Há colombianos de gerações e séculos. Há colombianos ciganos, japoneses, alemães, árabes, que deixaram suas terras para vir se estabelecer no pais (porque, fala sério, Colômbia é tudo de bom, ne?). Eles se consideram colombianos. E não deixam suas culturas. Até ai tudo bem. Eles são de diversos povos, mas fazem parte do mesmo povo, o colombiano. Porém, começaram a falar em cores. É ridículo, em um pais resultado da colonização e migração de europeus, mistura de indígenas, negros e brancos, ver como pessoas morenas afirmam que são brancas, ainda se atrevendo a afirmar que "branco é a cor nobre". Se corrigindo depois, para não parecer racistas, dizendo que "negrito" também é nobre. Colombiano é um só povo, não importa a cor da pele. Ser humano é um, apesar das diferenças.

O racismo está tecido no DNA da cultura. Está no fundo do coração de muitos que não se consideram racistas. É uma praga que se misturou nos gens há muitos séculos, desde quando foi legitimada pela religião. Aquele velho papo de "Canaã era negro, ele foi amaldiçoado, os negros descendem dele". Quando foi que o europeu começou a se considerar superior, não sei, mas já na Bíblia temos relatos racistas, como quando o Esdras e o Neemias, judeus superiores, expulsam as mulheres moabitas, raça inferior. Os cristãos adotam até hoje estes textos para legitimar sua "exclusividade", como se fossem favoritos de Deus. Os povos, mesmo provenientes de misturas êtnicas, insistem em se separar do resto da humanidade, do resto dos seus próprios conterrâneos, e se declarar superiores. São muitos os exemplos de racismo que vemos nos filmes americanos. As brigas de gangues mexicanas com chinesas, negros com blancos, e toda a humanidade que mora num mesmo pais se destroi, um contra outro, por questões de "raça". O seriado "Todo mundo odeia o Chris" é muito engraçado. E ao mesmo tempo mostra como o racismo está na sociedade, como marginaliza as pessoas, classificando-as por sua cor ou proveniência. O Chris é um drogado, orfão, cheio de irmãos e sei lá mais o que na cabeça da sua professora, só pela cor da sua pele. Ele não tem direito ao ensino superior por ser negro. A professora não tem muitas esperanças de que ele passe dos 17 sem ter filhos ou morrer. E nem a polícia se preocupa quando ele ou sua família sofrem abusos ou perdas. Afinal, eles são simplesmente negros.

Isso é nos Estados Unidos, na Colômbia. E também no Brasil. O passado comum de todos nós, negro e vergonhoso, é a escravidão, que pôs os nativos deste continente, e aqueles que foram arrancados da sua mãe África, sob um jugo pesado que ainda não caiu. Não era só o trabalho forçado, era o rebaixamento. Eles não eram humanos, eram simples animais. Índios e negros não valiam grande coisa, só como bestas de carga e trabalho. Pode ser que agora não haja mais escravidão, mas este rebaixamento na sociedade continua. E o pior é que as próprias etnias se rebaixam. Muitos se sintem inferiores, ou são, por sua vez, racistas contra os "branquelos". E assim a herança de ódio e ressentimento, de separação entre a humanidade continua, se perpetua nas palavras, nas tradições, nas guerras.

Mas Deus no início fez o homem e a mulher. Fez um de cada, um que representa a humanidade. Adão não tinha raça. Ele era humano, e isso bastava. Ele, para mim, simboliza a humanidade unida. Tenha ou não existido históricamente, o que ele representa é algo para ser refletido, algo para ser divulgado. Muitos estão morrendo pelo racismo. Racismo que não é expresso mandando os negros ao fundo o ônibus, como antigamente, mas que ainda existe nos corações e nos pensamentos das pessoas, mesmo sem elas perceberem.

Só quando aceitemos que somos um, e que não há diferenças entre uma pessoa e outra, só quando aceitemos que somos todos parte do mesmo povo, que fazemos parte do mesmo tipo de ser, aquele que é capaz de criar e de destruir coisas, de construir edifícios e desenvolver tecnologias, enfim, que somos todos seres humanos, vamos conseguir ter paz.

Adão é um símbolo, um exemplo do que deveriamos ser. Um.

5 de outubro de 2009

Do valor da dignidade

Depender dos outros é muito chato. Isso é algo que já sabia mas experimentar em carne própria só confirma o pressuposto. Só que confirmação dói na carne. Não que seja desagradecida. Aliás, se agracedece o sustento, é uma bênção de Deus.
Porém, quando quem te sustenta acha que por você depender dele, ele tem direito ilimitado sobre a sua vida, as coisas mudam. Não direito no sentido de chefe-escravo. A questão é mais sutil. É direito de maltratar a dignidade. Em termos mais simples, humilhar a vontade.

Uma coisa é ter um caráter brincalhão. Outra coisa é zoar o próprio ser das pessoas. Uma coisa é que o carioca seja engraçado. Outra que não respeite os sentimentos alheios. E quando se depende de alguém que cada dia, em público e em privado, muitas ou poucas vezes, magoa a própria dignidade, a própria identidade, o ser dói. O orgulho ferido vai sendo guardado no coração, que, pouco a pouco, se enche de raiva, de rebeldia.

E um dia a taça se enche. E um dia o coração ferido acorda os sentidos, e se percebe que não vale a pena. Não vale a pena estar numa prisão de desrespeito, engaiolar a dignidade por simples dependência económica. Não vale a pena vender a dignidade por tão pouco.

E sim, não há dinheiro. Sim, é uma grande ajuda. Mas, é mais importante isso do que sentir-se bem consigo mesmo? Estar em paz e com um coração limpo de ressentimentos e mágoas me parece algo mais importante do que uma efêmera e muito incerta estabilidade monetária.

A vida é mais do que dinheiro. E as vezes o que aparenta ser uma bênção vira um pesadelo. Uma vida degradada e vazia, cheia de raiva e mágoa. E não vale a pena. A dignidade não tem preço.

4 de setembro de 2009

E a vida sigue...

Ainda quando achamos que os nossos problemas não têm solução

Mesmo depois da dor, da decepção e do desânimo

Mesmo quando não sabemos o que será de nós no dia de amanhã

Sigue sem ter compaixão, impassível ao que sintamos ou pensemos. E a vida reclama ação. Não podemos simplesmente ficar olhando-a passar, pois ela nos agarra, nos obriga a caminhar com ela. Nossa vida sigue, dia após dia, e temos que vivé-la com ânimo (ainda quando não o temos), com coragem, com vontade.

A vida sigue, sigue até o nosso fim, e quando um dia olhemos atrás, vamos ver suas marcas no mundo... mas isto só acontecerá se a vivemos de verdade, se a aproveitamos, se a pegamos e a desfrutamos em cada momento, em cada minuto, se sofremos de verdade as nossas dores e gozamos de verdade as nossas alegrias. A vida que deixa marcas é aquela vivida intensamente, relevante num mundo apâtico, interessada em mudar as coisas ao seu redor.

Sim, a vida sigue... estamos vendo-a passar o estamos caminhando com ela?

1 de setembro de 2009

Vida Frágil

Semana passada aconteceu uma tragédia pessoal que me fez pensar no frágeis que somos. Nós sabemos que algum dia vamos morrer. Temos consciência disso, só que nunca esperamos a morte hoje, nem amanhã. Sempre a vemos como algo que virá lá longe. E quando ela vem e leva com ela alguém querido, alguém que pensávamos que viveria até chegar à velhice, alguém que tinha tudo para continuar com vida, vemos que não somos nada, que não somos donos dos nossos dias, que a morte está por perto, e que não vai avisar quando ela vir por nós.

E ai tantas confusões, tantas dúvidas e problemas, tanto caos que formamos dentro de nós mesmos, atormentando os nossos dias sem saber como parar, ficam de lado. E vemos que a vida é mais que problemas, mais que dúvidas, mais que lamentos. E que devemos aproveitar cada minuto dela, porque talvez em cinco minutos já não estejamos neste mundo.

E pensamos em Deus. Pelo menos eu pensei em Deus. No meio de tantas coisas que se falam de Deus, no meio de tantas versões de Deus (Deus caixa de banco, Deus-faz-milagres-quando-eu-quero, etc), no meio de tantas dúvidas e tantas palavras faladas por ai, vi que Deus é, sobretudo, esperança. É bom saber que ele nos cuida. É bom saber que ele nos ama apesar de sermos tão fracos e falhos e ruins. É bom saber que ele está conosco nos momentos mais tristes da nossa vida. E é bom saber que quando morrer, estaremos com ele. Talvez seja algo que nem todos acreditem, mas é o que me da forças, é o que eu acredito. Algo tão simples de pensar, que ainda não entendo porque as pessoas pegam essa esperança e a colocam numa caixa fechada, à qual se tem que chegar por meio de rituais, sacrifícios, coisas faça-não faça. Como se Deus ligasse para as convenções humanas. Como se ele se interessasse no tamanho da saia, do cabelo, da alcinha da blusa. Como se ele classificasse as pessoas pelo seu jeito de vestir e se expressar. Para mim o que Deus vê é o coração. Está escrito na Bíblia, essa Bíblia que é tão usada por ai, tão levada em baixo dos braços de tantos, mas que muitas vezes é usada só de adorno, ou para tirar dela coisas que ela não diz.

Talvez seja bom não pensarmos que vamos morrer. Se vivessemos pensando isso, nada fariamos, viveriamos com medo, medo de morrer. Mas também não podemos deixar de ter consciência da nossa fraqueza. Somos frágeis, devemos nos cuidar, e sobretudo aproveitar ao máximo o que a vida nos ofereça. Mesmo nas dificuldades mais difíceis, onde nos sentimos presos, como se não tivessemos saída, devemos lutar, esperar, sonhar. E saber que Deus está conosco. Isso dá um consolo à alma que é difícil sentir imaginando que estamos sozinhos no mundo. Que bom que Deus cuida da nossa vida frágil!

3 de julho de 2009

Um pouco de tudo

Muitas vezes quis escrever nestes dias, mas não achava o que. Talvez pelo cansaço do final de semestre, talvez pelos problemas que ocupam a maior parte dos meus pensamentos. Só agora tomei coragem de enfrentar a tela, o espaço vazio esperando ser preenchido de palavras. É muito difícil, as vezes, expressar o que se sente, expressar o que se pensa.
Mas é mais difícil ainda estar sozinha. Agora, com o final do semestre, todos estão viajando de volta ao lar. Eu, ainda tenho que ficar aqui estes dias. E é muito duro. A tristeza vela o coração mesmo sem querer, mesmo lutando com todas as forças para se manter alegre, normal. Os dias corridos, as tantas coisas para resolver ajudam a se distrair, mas chega o momento que o coração fica pesado, e as lágrimas se juntam querendo sair todas ao mesmo tempo. E não se pode fazer nada, só chorar, ou então aguentar a vontade de chorar.
Muitas vezes experimentei isto, muitas vezes irei experimentar. Sentimento conhecido, a tristeza. Algo que é universal, compartilhado por todos, sejam brancos, negros, amarelos ou o que seja. Mulheres e homens, crianças e adultos, todos algum dia experimentaram a tristeza. Ai é quando vemos que todos somos iguais. As diferenças que os homens se impõem uns aos outros, classificando as pessoas por cor, sexo ou riquezas, tudo é artificial. O ser humano básico continua ai, sentindo, chorando ou rindo, amando ou odiando. Passando fome, sede e cansaço da mesma forma. Por que então, ser humano, te iludes e aferras às diferenças artificiais? Porque não te aceitas homem um, como és na verdade?
Voltando à tristeza, é bom desabafar. É bom escrever. É bom ter como dizer o que está fechado no peito, afogando, oprimindo o coração. É tão ruim quando não se tem alguém por perto, alguém que possa entender, que não tente impor suas opiniões, só que esteja ali ouvindo. É tão ruim se sentir sós...
Muitas coisas têm acontecido nesta semana. A mais famosa, claro, é a morte de Michael Jackson. No meio de todos os "choros" dos fãs, no meio de toda a publicidade, de todo o sensacionalismo, se esconde um desrespeito absurdo para com o morto. Isto é, o cara acabou de morrer, e já estão vendendo imagens, sons, tudo que tenha a ver com ele. Se aproveitando da tristeza alheia para fazer dinheiro. Afinal, dinheiro é o que mais importa neste mundo materialista. A única coisa que tenho a dizer, com respeito ao cantor, é que acho que teve uma vida muito mas muito triste. Se via nos olhos dele. E agora, nem acabou de morrer e estão já divulgando todos os "aspectos secretos" da sua vida. Pobres estrelas. Pobres famosos. Vidas sem paz, mortes com menos paz ainda.
Nestas palavras todas, falando um pouco de tudo, encontrei o médio para me tranquilizar. Escrever me faz bem. Todas as coisas que estavam "cravadas no peito", agora estão, como dizer... cravadas no papel.

26 de junho de 2009

Desabafo...

Os problemas muitas vezes são um nó insolúvel. Os problemas muitas vezes nos amarram as mãos de tal forma que não lhes enxergamos a solução. Os problemas...

E quando se fala, se julga? Quando se diz o que se pensa, se está julgando o outro? Quando eu não sei o que dizer, e fico calada, pode ser que seja melhor... porém, a realidade intransigente passa sobre nós, e não se importa com as nossas mãos atadas, com nosso silêncio ou palavras, não se importa conosco... simplesmente passa sobre nós, nos atropela com toda a sua face espinhosa, deixando feridas sangrantes, uma dor fresca no fundo da alma...

Como fazer, como sair desse labirinto chamado problema que só nos amargura, e nos prende cada vez mais forte, como se soubesse que queremos sair dele?Como fazer para falar, quando se encontra um muro que repele as palavras, quando se acha uma dor maior, que se refugia na auto-defesa, que não ouve o que temos a dizer?

Eu não sou juiz de ninguém... só tenho consciência da dor, presente ainda quando tentamos ignorá-la. E as coisas se derrubando... e a dor cresce... e o que era já não é mais, nunca mais será...

Ainda acho que fugir, ir embora, não soluciona nada... mas como se faz?

9 de junho de 2009

Igualdade? Liberdade?

Agora não estou para textos longos. Só queria refletir um pouco sobre a nossa louca sociedade, que se diz livre, se diz democrática, se diz humana. Esta sociedade que se baseia no Direito Universal de que "todos os seres humanos são iguais, tendo os mesmos direitos e deveres..."
Mas será que essa igualdade toda, essa liberdade toda, existem de verdade? Será que a pessoa que caminha na rua, ao ver uma criança jogada em um canto, meio vestida e faminta, se sente de verdade igual a ela? Será que os seus filhos são, para ela, iguais em tudo àquela criança suja?
Duvido muito. O princípio de igualdade, tal como o temos hoje na nossa sociedade, é uma utopia, um disfarce para todas as injustiças descaradas que se cometem por ai. As pessoas não são avaliadas nem tratadas em base ao princípio da igualdade. Elas são julgadas, tratadas, avaliadas, com base na sua posição no mundo, as suas possessões, seu nome. Uma pessoa da rua só é considerada igual por aqueles que estão na sua mesma condição. A igualdade só existe em cada estrato da sociedade. Eu sou igual a quem é da minha mesma condição.
Porém, a sociedade proclama a igualdade universal do ser humano. E nós, seguimos assim, acreditando, fingindo que a sociedade vive o que proclama. A igreja (ela não pode faltar na reflexão, afinal ela se acha diferente da sociedade...) vive no mesmo sonho, a bela utopia da igualdade humana perante Deus. Contudo, a igreja faz distinção entre "justos" e "pecadores", entre santos e perdidos. E a sociedade não sente o agir da igreja.
Jesus veio com a proposta de amar ao próximo como a você mesmo. Outra utopia. Como meu professor falou, se eu amasse ao meu próximo como a mim mesma, não o deixaria passando fome em baixo da ponte. Mas como próximo é aquele que está no meu mesmo estrato social...
Quando deixaremos a hipocrisia? Quando encaremos a sociedade como o que é, totalmente injusta, totalmente desigual, quando não deixemos mais que os outros pensem por nós, e vejamos com nossos olhos a realidade do mundo, talvez haja uma esperança de passar a agir. Claro, é mais cômodo ficar sentado, reclamando do governo e das injustiças (quando elas são cometidas contra nós), olhando as pessoas sofrer sem sequer mexer o mindinho. É mais fácil se escudar em Deus como o ser que nos levará ao céu. É melhor pensar que Jesus veio ao mundo só por nós. Quem não é igual a mim nem sequer ocupa um lugar nos meus pensamentos...
E falando de liberdade, esta sociedade não é livre. As pessoas não são livres. Desde crianças, são treinadas para não opor resistência ao sistema opressor sob o qual aprendem a viver, cômodas e inativas. Desde sempre há o controle do pensamento. Os meios de comunicação, e isto não é novidade, são escolas de conformismo, ilusões vendidas ao povo nas novelas, nos comerciais que insistem em que comprar certa coisa, se inscrever em tal outra é o caminho da felicidade. E a igreja, em lugar de ser um ente libertador nesta sociedade louca, é mais um ente opressor, alienante, que impede às pessoas de pensar, as coloca sob o medo eterno do juízo de Deus, do juízo do "irmão, da exclusão (pelo menos nas igrejas batistas o membro pode ser excluído se cometer algum "pecado mortal", geralmente engravidar [enquanto isso muitos hipócritas, mentirosos e caluniadores assistem tranqüilamente os cultos...]).
Onde estão as igrejas filhas de Deus, proclamadoras da mensagem de igualdade e liberdade de Jesus Cristo? Estão ocultas em baixo de tantas doutrinas, de tantos ritos vazios, de tantas liturgias estáticas... Onde está o povo de Deus que quer mudar esta sociedade? Está reclamando as bençãos de Deus, o qual tem a OBRIGAÇÃO de fazer milagres e encher de dinheiro a todas as pessoas que peçam, e que assistam aos cultos de certas igrejas... Onde estamos, como cristãos, e sobretudo como seres humanos, neste mundo utópico de falsa igualdade, falsa liberdade, falsa humanidade?

28 de maio de 2009

Boneco Jesus

Jesus está de moda. O Evangelho, cristianismo, Deus, tudo isso está de moda. Ser crente virou algo muito popular.
Mas, que Jesus é esse que está sendo tão apregoado por ai?

Sinceramente, não sei. O Jesus que eu vejo ser pregado nas "igrejas" da televisão, nos programas "evangelísticos" como "Show da Fé" e tantos outros, não tem nada a ver com o humilde filho de carpinteiro que veio um dia mudar a história da humanidade.

Ontem estava, em um raro momento de descanso em estes dias de final de semestre, passando os canais da televisão. Não tinha muita coisa interessante, ai parei um pouco para ver o "programa cristão" do momento. Só que eu não vi nada de Cristo nesse programa, e nem vejo em nenhum outro desses programas que, pessoalmente, considero lixo. Vi só um monte de emocionalismo, muitas lágrimas (vai ver se eram verdadeiras), muitos erros bíblicos, e muita auto-exaltação por parte do "pregador". O nome de Jesus era usado como fetiche, como fórmula mágica para investir de poder a pessoa que estava falando.

Uma mulher deu um testemunho (ai que coisa linda!) dizendo que seus problemas financeiros tinham sido ressolvidos porque ela passou a fatura ou sei lá que papel PELAS COSTAS DO PREGADOR. Ou seja, quem fez o milagre nem foi Jesus.

Cada dia que passa vejo mais a banalização do nome de Jesus. Ele está deixando de ser o Senhor, o digno de respeito e reverência, para virar o boneco de pessoas que usam seu nome para ganhar dinheiro. Não sei se eles estão sendo sinceros no seu "ministério". Eu acho que alguns deles (senão todos) sabem o que estão fazendo. A manipulação do sagrado não ocorre de forma inconsciente. Eles sabem que o negócio é ganhar dinheiro. A espiritualidade das pessoas só é um meio para chegar a este fim.

O pior é que o que está sendo pregado não chega nem perto da mensagem escrita na Bíblia. Agora tudo o que se fala é milagres, bênçãos, curas. As pessoas estão sendo iludidas de que sua vida vai ser perfeita, com casa, carro e bolsa de estudos (segundo ditado popular colombiano...), se aceitarem "seguir a Jesus". E claro, comprar a água abençoada, a moeda da prosperidade, o sal da pureza e o óleo da unção. E pagar fielmente os dízimos, crer cegamente em tudo o que seu "bispo", "apóstolo" (ou semi-deus) dizer, deixar que se lhes imponham as mãos, subir ao monte dos 70 santos.

Em meio de tudo isso, o nome de Jesus é usado como marionete. A Bíblia é usada para sustentar o que os pregadores falam, sem importar se o texto está sendo lido fora do contexto, deturpadamente ou sem saber o verdadeiro sentido. Afinal, os "fiéis" não vão questionar o que está sendo dito. Ontem, em outro dos programas em questão (a programação estava de verdade ruim em todos os canais!), o pastor "Da um chute na cabeça do diabo" (e não to brincando não, esse é o nome que colocaram mesmo! disse que era o momento dos comerciais "no nome de Deus", "vamos ao momento comercial para a glória de Deus"!!!!! Como assim? É que a venta de celulares ou outros produtos é algo para glorificar a Deus? Eu acho que o "pastor" estava se referindo ao próprio bolso...

O pior de tudo isto é que as pessoas não percebem que estão sendo manipuladas. A coisa é sutil (nem tanto, mas as pessoas acham tudo tão lindoooo...) e elas vão com a esperança de que suas mágoas, sofrimento e dor sejam tiradas delas. A manipulação do sagrado é um assunto sério, se está brincando com o nome de Deus, com a vida das pessoas, com a esperança delas. Se cria um mundo onde Deus está ao serviço do pregador, o qual só com fazer uso do seu nome, pode realizar todo tipo de "milagres". Deus deixa de ser Deus. Jesus é só um nome que dá grana. E as pessoas choram, gritam aleluias, cantam e dançam, fazem filas longas para ser alcançadas com a "unção" do bispo, para que seus problemas sejam solucionados.

Este sistema é nojento. Revolta o estómago ver tantas pessoas nessas pseudo-igrejas, nesses lugares de lucro às custas dos ignorantes. Ignorantes no sentido que eles não sabem. Raramente conhecem a Bíblia. Para eles tudo o que ouvem provêm do céu, as palavras do "pastor", "apóstolo" ou o que seja são palavra de Deus, e comunicam a sua vontade. Só que no meio disso há muito interesse. A metade do que se prega tem um objetivo específico, que é criar ilusão nas pessoas, induzí-las a um determinado comportamento. A fé é vendida como requisito para aceder às bênçãos. Claro, fé no bispo, fé no óleo sagrado, fé no copo da bênção.

As pessoas têm que aprender a questionar. A vida perfeita que estes pseudo-pastores oferecem não existe. Quando os problemas voltar a aparecer, estas pessoas não vão ficar revoltadas com os falsos pregadores que as enganaram. Elas vão ficar revoltadas com Deus. E ai toda a espiritualidade, toda a fé vão deixar de existir. Este "cristianismo" doentio está fazendo com que Jesus, o Senhor, deixe de ser levado a sério.

Até quando as pessoas vão seguir acreditando nas palavras vazias que os pregadores sem vergonha lhes falam? Até quando vão deixar que os cínicos se aproveitem de suas tristezas e preocupações para se enriquecer? Até quando vamos permitir que se pregue um "evangelho" deturpado, e até quando vamos deixar que Jesus seja só um boneco?

20 de maio de 2009

Absolutos questionáveis

Ao longo da nossa vida aprendemos a obedecer as regras impostas pelos outros. Quando crianças pensamos que a palavra dos nossos pais é absoluta, eles são infalíveis. Quando crescemos, vemos que eles estão sujeitos ao erro, e sua palavra e regras podem assim ser questionadas.

Com o passar do tempo, muitas coisas passam a ser questionáveis. Leis, regras de comportamento, palavras, atitudes, e aprendemos a procurar (numa procura que só vai acabar com a morte) a razão nas coisas deste mundo, queremos saber que coisa é verdadeiramente importante, que coisa é inalterável, e que coisa não.

Nesta dinâmica, nos deparamos muitas vezes com "absolutos", coisas que pretendem ser inquestionáveis, inalteráveis, imutáveis, e que são usadas por alguns para impor sobre os outros suas próprias razões. Os absolutos fundamentam a autoridade das pessoas que os estabelecem. Quando alguém começar a questionar estes absolutos, será feito todo o possível para calar estes questionamentos. Para que estes "absolutos" o sejam efetivamente, devem proporcionar ao nosso entendimento razões suficientes para que a nossa procura sobre o seu sentido seja satisfeita.

Reconhecidamente, as razões religiosas são as mais "absolutas". Ao mistificar as regras, ao colocar transcendência nelas, estas regras, que antes podiam ser simples argumentos questionáveis, passam a ser "absoluto" indiscutível. Contra elas não se pode levantar argumento contrário.

Um exemplo disto foi toda a Idade Média, onde a palavra dos Papas era tida como palavra de Deus (mistificada), de forma que fosse o que for que eles falassem tinha que ser obedecido sem questionamento algum. Mas os "absolutos" não o são eternamente. Um dia surgiu Lutero, e incluso antes dele outros grupos surgiram, e questionaram esta conceição, quebrando assim o poder absoluto da Igreja Católica sobre a vida das pessoas.

Porém, quando um absoluto cai outro se levanta. Lutero quebrou absolutos mas estabeleceu outros.

Qual é o ponto ao qual quero chegar, afinal?

Para mim, e este é o ponto, todos os absolutos são questionáveis. Isto é algo muito perigoso de dizer, visto que a igreja se fundamenta em absolutos. "Isso é pecado por..." e vem um monte de absolutos. "Você não pode fazer desse jeito, porque..." e vêm mais absolutos. Mas todos estes são, para mim, relativos. A crise é quando tudo é considerado relativo. Ai, qual é a razão deles? Qual é a verdade?

Quando a verdade se apregoa como absoluta, se excluem todas as outras. Porém, há no mundo mais do que um ponto de vista, e há assim mesmo mais de uma verdade absoluta.

E agora? Como disse antes, nossa procura pela razão das coisas será infinita. O importante é reconhecer os "absolutos" que nos são impostos. Se não reconhecer a questionabilidade destes não há mais nada a fazer.

Depois, é importante questionar. Assim como começamos a questionar nossos pais quando adolescentes, podemos começar a questionar todas as coisas que se nos impõem. Até aqui cheguei eu. Estou ainda procurando o passo a seguir.

Não sei se este texto ficou confuso, porém, se assim for corresponde ao estado da autora. Nestes momentos nada é claro no horizonte... só muitas mudanças acontecendo, paradigmas sendo quebrados, e a procura por um paradigma que para mim seja coerente. Misericordia!!

27 de abril de 2009

Questões

Ultimamente as coisas não têm andado como "deveriam" andar. Muitas coisas são cada dia mais confusas, muitos conceitos, razões, valores e idéias que eram fixas agora estão tremendo sobre um chão de dúvida que ameaça acabar com elas, tragar tudo sem deixar nada em pé. O que é, afinal, a vida, senão uma constante mudança de paradigma? Porém, esta mudança dói, e muito.

Algumas das minhas questões fundamentais, perguntas que pelo momento não têm resposta:


  • O que é "o mundo"? Essa coisa tão terrível da qual o "crente" vive fugindo, se escondendo dele nas igrejas, tentando se isolar de todas as coisas que possam trazer o mundo para dentro das suas vidas. Para mim classificar certos hábitos culturais, como beber ou fumar, como coisas mundanas, é algo meio bitolado...

  • O que é pior, ouvir música "do mundo" (de novo o monstro ao ataque) ou dizer mentiras ou ser hipócrita na cara de pau com o irmão que senta do seu lado na igreja? Muitos fofoqueros adoram ir à igreja...

  • Ser "de Deus" é aceitar todas as tolices que alguns pregadores falam? Chorar ouvindo músicas mediocres como "entra na minha casa, entra na minha vida..."?

  • Ser cristão é seguir a Cristo ou seguir o que dizem na sua igreja?

  • Ser "normal" é aceitar todas as regras idiotas que a sociedade impõe?

  • Por que casar é uma doidera (vai estragar a sua vida...), e namorar até os 40 (de preferência com muitas pessoas) é uma coisa aceitável? Não é uma inversão de valores?

  • Por que as pessoas estão tão preocupadas em estragar a vida dos outros? O ditado "a inveja mata" já está ficando curto para todas as atrocidades que as pessoas fazem contra as outras...

  • Por que as pessoas fingem e são tão egoistas que só vem "o seu sofrimento" sem perceber o dos outros?

  • Por que tudo o que a gente aprende como certo afinal resulta errado ou questionável? Por que aprendemos a ver a vida a duas cores quando está cheia de tons intermedios para confundir a visão?

  • Ser decente é usar roupas sem muito decote, saias longas e blusas compridas? Ser vulgar é usar palavrão? Muitas pessoas vulgares tenho visto que aparentam grandeza de cultura...

  • O que é igreja? Já, não venham me dizer que é a reunião dos crentes em Jesus porque isso já não acredito... muitos tem no meio que não estão nem ai nem pra Deus nem para os outros. Eles, porém, são membros de igreja...

  • Desde quando se deslocou o centro do cristianismo? As pessoas não mais pregam Jesus, senão como instrumento de cura que o "missionário tal" oferece... Se ouve falar em milagre, bênção, riqueza, felicidade e bem-estar, o diabo é mandado embora uma e mil vezes para ser chamado no culto seguinte, a fim de poder expulsá-lo de novo. Deus passou a ser marca de consumo, oferecido como se fosse um novo carro com todos os luxos... cadê o respeito?

  • Por que as pessoas se aferram a coisas que não são fundamentais, como o "autor" de este o tal outro livro da Bíblia, brigando "porque foi Marcus mesmo que escreveu o evangelho" e deixando passar as besteiras mencionadas no ponto anterior? Não deveriamos brigar pelas coisas importantes? Muitas pessoas há que não aceitam divergências enquanto as suas tradições, mas aceitam os óleos da bênção e copos de água que certos pregadores oferecem por ai...

  • Que é verdade? A tua, a minha, a dele? Muitas opiniões, cada um afirma que ele está falando a verdade absoluta. E aí, como é que a gente faz?

  • Que é pecado? Ir dançar ou humilhar o próximo? Beber ou fofocar do vizinho? Quais são os nossos valores? Há um padrão de "santidade" um pouco fora da realidade... na verdade é uma série de regrinhas "faça-não faça que obterá resultados espléndidos!"

  • Que é mais importante, resgatar alguém que está sozinho na rua ou evitá-lo porque "pode me contaminar, ele é do mundo"?

Comecei pelo "mundo", terminei pelo "mundo". Para mim muitas coisas não estão no lugar certo, muitas das coisas que temos aprendido desde sempre não enxergam a realidade como ela é, mas como elas pretendem que seja. Não há um só parámetro de existência. A vida é mais complicada e por sua vez mais simples do que muitas vezes aprendemos e pensamos. E agora? Haja paciência, com tantas questões na minha cabeça, só pela misericórdia de Deus que não estou doida sem remédio... pelo menos não tanto!

31 de março de 2009

Saindo do Quadrado

A nossa é uma sociedade individualista. Somos ensinados que devemos procurar primeiro o nosso bem-estar, sem importar o bem estar dos outros. O egoísmo está cada vez mais presente nos corações das pessoas, fazendo com que elas se isolem das outras (isto afeta tanto as relações interpessoais, os casais não entendem mais o conceito de se dar ao outro, cada um quer prevalecer e ser o centro do relacionamento, como o próprio interior do ser humano, com a solidão).
A palavra egoísmo significa: “
amor próprio excessivo, que leva o indivíduo a olhar unicamente para os seus interesses em detrimento dos alheios”. Cada um olha por si, e os outros podem ir pro brejo.
O que tem a ver isto com a igreja? O que tem a ver conosco? Nós estamos inseridos na sociedade, e muitas vezes nos comportamos de forma parecida às pessoas ao nosso redor. Muitas igrejas se fecham aos outros, se tornam entidades que trabalham para si mesmas: as pessoas de fora igual são perdidos e não merecem que compartilhemos do nosso tempo santo com elas. Muitas vezes se estabelecem distinções
entre a “igreja” e o “mundo”, no qual vivem as pessoas não “crentes” que podem contaminar o crente se ele se misturar a elas. Assim se cria uma isola. A igreja fica reclusa no seu quadrado, vendo só por ela mesma.
Mateus 9, 35-36. Durante seu ministério Jesus demonstrou sempre amor e compaixão pelas pessoas. Aqueles que eram considerados pecadores aos olhos dos religiosos da época, porque não podiam cumprir todas as leis, porque eram incapacitados fisicamente ou porque não iam ao templo, eram atingidos por Jesus. Para Jesus não existiam divisões sociais ou religiosas capazes de fazer com que só uma parte do povo merecesse ouvir a sua palavra. Ele via as multidões como ovelhas sem pastor, cansadas, sem esperança. Uma ovelha é um bicho muito burro, sem pastor ela está condenada à morte. As pessoas sem Jesus estavam, e estão condenadas à morte eterna.
Porém, a igreja de Cristo, que devia ser imitadora de Cristo, está reproduzindo o modo de ver as pessoas dos fariseus da época de Jesus, e o modo de viver imposto pela nossa sociedade individualista. Estamos muitas vezes comportando- nos como o levita e o sacerdote da parábola do bom samaritano, evitando o contato com o ferido. Muitos falam: “Somos nós, crentes” Como se por sermos crentes, por vir à igreja merecêssemos um prêmio ou a bênção incondicional de Deus. E o povo? As pessoas que se perdem porque estão sem um pastor que as guie? Muitas vezes nos esquecemos de que um dia fomos como eles, perdidos e sem esperança.
Para sermos como Jesus, devemos sair do nosso quadrado. A nossa missão não é ficar na igreja, bonitinhos, todo domingo assistindo ao culto e fazendo o que um “crente”deve fazer. Nós devemos enxergar como Jesus enxergava. Ao caminhar pela rua, Jesus não via pessoas feias, como muitas vezes nós vemos, não via pessoas sujas ou que devia evitar. Ele via pessoas que precisavam dele, cansadas, de olhar triste, doentes do corpo e do coração. Pessoas sem esperança.
A igreja deve sair da sua comodidade. Ela deve passar a se preocupar menos com o irmão que me olhou mal, com as brigas sem importância, e passar a se preocupar mais com as pessoas. Precisamos enxergar as necessidades da gente ao nosso redor.
A modernidade, como se falou, trouxe a solidão. Já não existe mais compaixão. Na Inglaterra, país onde se desenvolveu muito o protestantismo, as pessoas podem ver uma velhinha cair na rua, e passar do lado. Ninguém ajuda a ninguém, cada um deve ficar no seu quadrado para não “invadir a privacidade do outro”. A nossa realidade não é tão extrema. O brasileiro é hospitalar e acolhedor. Porém, estamos tão acostumados a ver o sofrimento, que quem sofre não nos importa mais.
As pessoas clamam por esperança. Elas precisam uma razão para viver. Nós sabemos que a única esperança e vida verdadeiras estão só em Jesus. O que estamos fazendo para espalhar esta notícia? Não se trata simplesmente de falar, devemos também atuar. (Ler Mat. 25, 42-43) Se nós pregamos o evangelho a alguém com fome, e o deixamos com fome, ele não poderá sentir o amor de Jesus em nós. O nosso Senhor não somente falava, ele fazia.
Mt. 9, 37-38. Para finalizar, devemos começar por orar ao Senhor que nos capacite a ir a este povo que precisa de nós. Ele via que a seara era grande. Precisamos não um missionário só, mas toda a igreja enxergando o povo que morre sem Jesus, que vive uma vida triste, que afronta os problemas sem saber que ao seu lado pode ter ao melhor de todos, a Jesus. Cada um de nós deve se preocupar com as outras ovelhas, aquelas que ainda não conhecem ao pastor mais amoroso que possam ter nas suas vidas. Nós somos ovelhas resgatadas, e devemos nos ocupar com nossas irmãs que estão perdidas. Não há divisão possível entre “igreja” e “mundo”. Nós não somos melhores do que eles. Em certo modo somos as vezes piores, pois conhecemos ao salvador e não nos importamos por fazer com que eles o conheçam também. Somos egoístas.
Jesus tinha compaixão das pessoas, e nós?

13 de fevereiro de 2009

Durmindo a Vida

Muitas pessoas vivem a sua vida como se estivessem durmindo. Elas acordam, seguem sua rotina de sempre, voltam a dormir. As suas vidas passam sem que elas mesmas percebam, e se um dia acordam do seu sono, é só para olhar para trás e ver que a vida passou e elas não a desfrutaram.

As vezes nos deixamos levar pela agitação do mundo, a sociedade que nos impele a desempenhar o nosso papel, as obrigações que se acumulam na nossa frente. O sono que nos invade.

E no entretanto a vida passa, muito mais rápido do que sonhamos.

Tantas vezes é o futuro que nos adormece, pois ficamos perseguindo-o, ficamos sonhando no dia em que as coisas vão ser desse jeito ou daquel outro. Quando o mundo seja melhor. Quando a situação econômica melhore. Quando a sociedade seja muito mais respetuosa, tolerante e amável. E enquanto esperamos ficamos durmindo, não participando ativamente deste mundo de modo a fazer com que nossas esperanças do futuro aconteçam.
Quando iremos acordar? Será que alguém algum dia vai nos acordar e mostrar que estamos neste mundo para viver, e não para dormir? Temos muitas coisas ainda por fazer, muitas situações por mudar, o mundo está cada vez pior pela nossa inatividade. Devemos sair do nosso sono.

O futuro não deve ser só uma esperança inalcançável, ele deve se tornar a nossa meta. As coisas não se fazem sozinhas. A vida não se limita à nossa rotina, não são só as nossas obrigações que devem preencher cada minuto de nossa vida. Temos que parar de correr, correr durmindo, sem perceber as coisas que estão ao nosso redor, o sair e o pôr-do-sol, a natureza fantástica, todas as coisas maravilhosas que foram inventadas porque se precisava delas, e às quais estamos tão acostumados que esquecemos que teve uma época na qual elas eram só um sonho, uma esperança do futuro. Assim como esses inventores, que se levantaram e fizeram o futuro acontecer, assim devemos ser nós.

O mais importante de todo é que estamos vivos para desfrutar a nossa vida (Eclesiastes 5, 18). Devemos aproveitar cada momento aqui na Terra, cada dia com seu próprio mal, mas também com seu próprio bem. Um meu professor disse que Jesus veio, Jesus morreu tentando mudar as coisas aqui no mundo. Ele queria uma mudança na sua sociedade, e por isso os líderes políticos e religiosos ficaram irritados. Ele não se limitou a oferecer felicidade futura, ele morreu tentando mostrar às pessoas como buscar felicidade presente. Ele não durmiu a sua vida. Ele a aproveitou fazendo o que foi encarregado de fazer.

E nós, se estamos durmindo ainda, devemos acordar logo, antes de que seja tarde, antes de que abramos nossos olhos e vejamos que já estamos cansados, sem forças, sem mais vida pela frente. O mundo está ai, para quando decidamos agir. Só que não vai estar ai para sempre. Devemos nos apressar, devemos viver!