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8 de agosto de 2011

De Preconceitos, Estereótipos e Hipocrisia

Preconceito é algo que muitos sofrem, mesmo que não sejam homossexuais, negros ou membros de minorias. Na sociedade as pessoas são frequentemente estereotipadas, e aquele que sai do padrão é objeto de preconceito. Eu quero falar aqui de certo tipo de pessoas que sofrem de bastante preconceito, que são bastante estereotipadas, mesmo que não se fale do assunto nos jornais. É conhecido que os "crentes", os "evangélicos", são um grupo bastante estereotipado. Para o resto do mundo, crente é aquele que não bebe, não fuma, não dança, usa cabelo comprido, não se maquia (dependendo da denominação), só sabe falar de Jesus e é alguém que se deixa manipular. Eu não concordo com este estereótipo. Para mim cada cristão é livre de pensar e de agir, de vestir como quer, dançar se ele gostar, fumar se quer morrer cedo, enfim, não há um caixão onde enfiar todos os crentes.
Mas o que me interessa aqui é falar dos líderes, e sobretudo, as esposas destes líderes. Dentro da igreja se tem a ideia de que esposa de pastor é uma espécie de sombra do pastor, que fica atrás dele, trabalhando junto com ele em todas as atividades que existam. A mulher do pastor não pode vestir de certa forma, não pode fazer isto ou aquilo, e os filhos não podem ir a certos lugares, não podem ser isto ou aquilo, e devem fazer isto ou aquilo outro. Como se fossem uma família de alienígenas, que devem ser diferentes do resto da comunidade só porque são o líder e a sua família. Isto se aplica, em maior ou menor medida (depende da igreja), também às famílias dos ministros de música e de quem for líder da igreja. E assim, existe um estereótipo de mulher de pastor perfeita, de filhos de pastor perfeitos, de líderes perfeitos. E se esquece que as pessoas têm direito cada uma à sua individualidade, que as pessoas não se casam com uma pessoa pela sua profissão e sim pelo seu caráter, que cada indivíduo tem o direito de procurar a sua felicidade e pôr em prática suas habilidades, que ninguém pode regulamentar as vestes ou o modo de pensar de alguém só por ser casado ou ser filho do líder.
E quem quer sair do estereótipo sofre preconceito. É alvo de críticas, é rejeitado, pressionado a assumir o padrão predeterminado. Isso sob ameaça do líder "perder seu cargo" (Não que se fale isso na cara da pessoa, mas o que se subentende é que "isso atrapalha o ministério...")! Quem disse que mulher de pastor é a sombra do pastor? Quem disse que mulher de pastor, que filhos do pastor não têm vida própria? Acaso os filhos do pastor nasceram com auréola na cabeça só pela profissão do pai? São descendentes de anjos ou algo assim? E a mulher de pastor deixou de ter personalidade, opiniões próprias, desejos de realização pessoal, gostos, afinidades, só porque o marido é pastor? A cobrança que a igreja faz sobre a família dos líderes é irracional, é injusta, porque o que se exige dos outros, o que se exige deles não é realizado por aqueles que exigem. A família do pastor tem que estar enfiada na igreja, tem que fazer tudo, estar sempre lá, enquanto eu não posso, estou cansado, trabalho, tenho que sair... assim é bem fácil!
Desse preconceito ninguém fala, e quem o sofre só tem duas alternativas: ou se submete ou se rebela. Quantos filhos de pastor revoltados com a igreja não há por ai? Mas se se rebelam, sofrem mais ainda o preconceito, são duplamente mal falados, são alvo de mais julgamentos. E o pior é que geralmente ninguém se dispõe a se importar com a pessoa, a perguntar como está indo a vida dela. Para o resto do grupo, a família do pastor não é composta de pessoas, mas de papéis a ser desempenhados. 
E eu me pergunto, no meio de tudo isso, onde fica o amor cristão? Onde fica o "não julgueis para não ser julgados" e o "cuidado com a língua"? As igrejas em geral sofrem de uma doença crônica de hipocrisia e de fofocas, parece que as pessoas se acham santas por não roubar, não matar, ir à igreja todo domingo, e isso lhes dá a liberdade de falar mal dos outros, de aqueles que depois vão chamar de irmãos. E quando se trata da família dos líderes, ai é que as línguas se afiam! Ai é que as máscaras se fazem universais, e os dedos mais prontos para apontar "falhas" e "defeitos". Que vestiu ou deixou de vestir, fez ou deixou de fazer, que o filho do pastor não pode ir na tal festa, que a esposa de pastor não pode vestir shortinho. E biquíni então, vira veste do capeta! E o amor de Deus, tudo o que Jesus pregou, até as músicas que se cantam, onde fica tudo isso? Como se pode cantar que somos irmãos, que somos um em Jesus, que vamos unidos em comunhão, e depois falar mal dos irmãos? Falar mal dos líderes e de suas famílias? Cadê a prática do cristianismo?
As igrejas esquecem que os líderes são pessoas iguais a elas. Que sofrem igual, têm lágrimas também, se cansam, pensam, sonham, e que as suas famílias têm sonhos, que são feitas de indivíduos. Não são uma massa grudada ao líder. Cada membro da família é único e independente. Esse negócio de que líder deve ser mais santo é uma desculpa furada. Ser humano é ser humano, não há ninguém mais perfeito ou melhor que os outros.
O estereótipo de família de pastor (e de forma mais ampla, as famílias de todos os líderes) deve desaparecer. As igrejas precisam reconhecer a individualidade dos membros da família do seu líder. Afinal, os filhos do pastor não escolheram os pais, e a mulher dele não casou com a sua profissão. Se tiver vocação para ajudar na igreja bem. Se não tiver, deve se respeitar sua postura. A família dos líderes deve deixar de ser vista como os alienígenas perfeitos que se exige que sejam, e passar a ser vista como simples membros da igreja, iguais a todos os outros. Além disso, a igreja deve deixar de prestar atenção no que os irmãos fazem ou deixam de fazer. A hipocrisia está acabando com as igrejas. O pior é que a pessoa não tem tempo para dar um alô para o irmão, chama-lo para um jantar em casa, mas todas as fofocas ao respeito dele sabe de cor, e tem tempo ainda de falar mal dele com os outros. A fofoca é um problema grave, um pecado como qualquer outro. Ninguém tem o direito de falar mal dos outros, sejam líderes ou não. E se alguém tiver queixas sobre o líder, fale com ele. Não pode ficar falando pelas costas dele. Os preconceitos e os estereótipos na igreja devem cair! As famílias dos líderes devem ser liberados do peso do estereótipo, devem poder ser livres para viver sua individualidade como cristãos e como seres humanos!

22 de março de 2011

Igreja de Produção em Massa II

As vezes a pressão que a gente sente na igreja é mais do que podemos suportar. Sei disso porque às vezes não sei o que fui fazer lá, não sinto aquela paz, aquele "estou aqui louvando a Deus", mas sinto uma carga, uma pressão, um "tenho que vir porque pega mal...". Pega mal. Para meu marido, claro. Acho que é o preço de casar com ministro. Ainda bem que ele não é pastor. As igrejas cobram demais do pastor e da sua família. A esposa de pastor deve ser uma mulher submissa que trabalha em todas as atividades da igreja. Que está ai sempre que se precisa. Ahhh fala sério, isso não é pra mim! De mim só se cobra que eu vá na igreja. Mas ainda isso é bastante.
Mas o que eu queria falar mesmo é da hipocrisia que resulta dessa pressão da igreja por fazer seus membros "santos". Santo não é qualquer um, ele tem que cumprir certas regras: tem que ser religioso, ir na igreja todo domingo, participar em todas as atividades, nunca beber nem fazer nada que não seja "de crente".  Isso corta muito as asas das pessoas. Pelo menos as minhas e de muitos que conheço. E ai, surge a hipocrisia. Alguns se resignam, cumprem ao pé da letra o que os outros membros da igreja cobram, e vivem felizes. Até eu já fui assim, e achava que tudo era vontade divina. Mas um dia acordei para a vida real, e não consigo mais ser assim. Não consigo me sentir pecadora por tudo. Não consigo eleger minhas roupas com base no que posso ou não usar na igreja. Só que a pressão ainda existe. E só resta andar, mesmo sem querer, mesmo odiando ter que fazer isso, pelo caminho da hipocrisia.
A hipocrisia que faz dividir o guarda-roupa em dois: roupa que se pode usar na igreja, roupa que não se pode usar. Mesmo que o vestido seja comprido até o chão, se ser tomara-que-caia pode ferir a respeitabilidade de certos velhinhos membros da igreja, então melhor não. E se a gente quiser ir tomar um gole com os amigos num barzinho, melhor sentar nos fundos, não seja que alguém da igreja passe e veja a gente. Absurdo! Como se a gente estivesse cometendo o maior crime! Porém, se sabe que certas coisas pegam mal. Então a gente tem que fingir, tem que se esconder, tem que fazer tudo quando os outros não vão ver. Tem que ser hipócrita.
Eu já cansei disso. Sinceramente não estou nem ai para o que os outros pensam de mim o do que eu faço. Mas tenho que pensar no meu marido, porque pode pegar mal para ele. E assim, tenho que continuar com a hipocrisia. Tenho que me segurar quando quero sair dançando, tenho que deixar de ser eu mesma.
Nesse sentido a igreja me asfixia. Em lugar de ser o grupo de irmãos com os quais me reúno para louvar Deus, virou um grupo de gente pronta a apontar o dedo na minha direção, para falar mal de mim. E não suporto mais isso.
Afinal, onde fica a liberdade? Se todos os olhos estão atentos para qualquer nosso "erro", onde fica a nossa liberdade individual?

12 de março de 2011

Igreja de Produção em Massa

Hoje estava conversando com a minha amiga e pensei de repente na frase que é o título deste texto. Eu vinha pensando já há algum tempo sobre o assunto, sobre as diferenças, individualidades e sobre a igreja. Querida e velha igreja. A igreja de que eu falo não são as pessoas em si, cada uma, cada "crente". É a igreja instituição, aquela que é representada pelo prédio com a cruzinha, geralmente. Que é composta de pessoas, mas que ao se pensar nela se pensa como uma. Eu mudei muito desde que deixei a minha igreja na Itália e vim fazer teologia. Às vezes me pergunto até que ponto foi bom ter mudado. Mas acho, não, tenho certeza que não posso voltar atrás. Eu sou o que sou agora e não vou jogar fora quatro anos andados. E não quero ser o que eu era. Porque agora eu estou numa crise ferrenha, mas estou me encontrando. Antes eu
 era mais uma "ovelhinha". Mais uma. Pensando igual, agindo igual, se der mole até vestindo igual aos outros membros da igreja.
Analizando a sociedade, vejo que as pessoas gostam de ser diferentes. Só que terminam se encaixando em algum grupo "diferente", onde todos são iguais. Tem os rastafaris, tem os punk, tem aqueles que gostam de hip hop e muitos outros grupos. Cada um proclama a sua vontade de ser diferente dos padrões normais da sociedade. Só que, dentro da sua própria sociedade, que é seu grupo, todos são iguais. Vestem as mesmas roupas, usam as mesmas gírias, ouvem as mesmas músicas. É uma homogeneização de pessoas em um grupo separado. Mas, para mim, afinal dá tudo na mesma.
E na igreja é a mesma coisa. Vivem proclamando que devemos ser diferentes, que a gente tem que se afastar do "mundo", que o "mundo" não presta e todo é do capeta, e que nós, crentes, devemos ser referência. Mas, afinal, terminam todos sendo iguais. Vira uma produção em massa de "crentes" que, dependendo da denominação, podem ser mais ou menos evidentes. Assembleianas que não cortam o cabelo, não usam maquiagem e não depilam as pernas. Crente não bebe. Crente não dança. Crente não pode fazer isso ou aquilo. Crente de verdade vive na igreja. Crente não vai de tomara-que-caia na igreja, não usa shortinho, não usa saia curta. Os homens vão de cabelo curto. Se der mole vão até pedir para as mulheres usarem véu! E todo mundo fica igual.
E eu cansei disso. Eu sou diferente, e gosto da minha individualidade. Gosto de fazer as minhas coisas, de vestir como eu quero, como eu me sinto bem. Gosto de ouvir minhas músicas, cantar, dançar. Gosto de sair, de curtir, de rir. Gosto de fazer as coisas sem ter que pensar se "vai pegar mal", se vou escandalizar alguém. E não gosto de fazer nada obrigada. E às vezes acho a igreja muito opressiva. Como se ao entrar ai me enfiassem num saco de generalização, e eu deixasse de ser eu, para ser igual aos outros (saindo um pouco do tema, mas dentro do mesmo raciocínio, penso que isso leva muita gente a aloprar. Essas pessoas que eram os super cristãos, e que de um momento ao outro saem por ai não querendo saber de igreja, indo na gandaia e vestindo roupas estrafalárias. Elas se libertam da "opressão", mas vão ao outro extremo, achando que agora tudo está liberado... isso porque nunca aprenderam a administrar a própria liberdade). 
Eu penso que é algo normal dentro da sociedade. Como já disse, em todos os grupos que proclamam sua "diferença" acontece o mesmo. O problema é que eu não quero mais ser igual. Não sou igual àqueles que os evangélicos dizem ser do mundo. Mesmo porque eu acho que essa diferenciação entre "a gente, os cristãos" e "o mundo" é coisa do Agostinho, do Platão e de toda a teologia medieval, que já devia ter sido ultrapassada. Ainda por cima não gosto de Agostinho. Mas, voltando ao assunto, eu não quero mais seguir um padrão imposto de comportamento. Nem de uns nem de outros. Ou seja, não é que agora eu vá correndo fazer tudo o que a igreja diz que não posso fazer. Não é isso. Simplesmente peço o meu direito de ser livre. De poder ser eu. De deixar de fazer parte da massa, e de pensar com a minha cabeça, de refletir, até de criticar. O meu direito de não aceitar tudo que me falam como verdade absoluta, como algo que devo acatar em silêncio. O direito de poder decidir o que é que eu quero, o que é que eu gosto. Se eu gosto de dançar, não quero ter dedos apontando em minha direção. Se uso sainha, shortinho, e se bebo um ice ou um cuba livre, não quero fazer tudo isso escondida. Não tenho de que me envergonhar. Não estou fazendo nada de errado!! Eu quero ser livre daquela praga chamada "o que pensam os outros". Que se dane. Estou pouco me lixando para os outros!
Esse negócio de dar testemunhança da minha fé não rola mais comigo. Para mim ser cristã não é ser como dizem. Não é ir na igreja, orar e ler a Bíblia. É algo mais profundo. Às vezes me pergunto o que é mesmo. Só peço que Deus tenha paciência comigo. Eu estou como Jó, questionando esse Deus que a teologia tradicional lhe punha na frente. Porque o problema é esse: a igreja usa Deus no seu discurso, para poder fazer funcionar a sua produção em massa. E como é que uma pessoa em sã consciência pode falar contra Deus? Tem que estar mesmo em crise para poder fazer isso...
Para concluir, só espero, sinceramente, que as pessoas nas igrejas comecem a enxergar com seus olhos, e a pensar com suas cabeças. Deus é muito mais do que nos dizem, e muito do que se prega por ai é cultura, não Deus. Como se a minha salvação dependesse de um copo de caipirinha!! A vida é muito complexa, e o discurso das igrejas é muito simplista. E depois se queixam de que o povo tem o coração duro... o problema é que o discurso não satisfaz mais as perguntas da alma e da razão! E esse negócio de que Deus não se entende com a razão não é justificativa, porque para mim se Deus me deu um cérebro foi para usá-lo, em qualquer situação.
Espero muito que algum dia a produção em massa das igrejas termine, e as pessoas lutem pela sua individualidade. Afinal, diante de Deus não somos uma massa informe. A gente não prega que Deus se relaciona com cada um na sua individualidade? Então, se Deus faz isso conosco, porque a igreja espera que todo mundo seja igual? É mesmo um sem-sentido...

10 de novembro de 2010

De Ovelhas e Costumes

Sábado passado assisti ao vídeo de uma pregação sobre família e casamento. Algumas coisas do que ele falou eu gostei, outras não. Nem concordei com tudo o que ele falou. Mas o que me fez pensar foi um fato que achei muito engraçado. Por cada coisa que ele falava, dizia: "Digam amém!" E o pessoal da igreja, unânime, respondia: amém!. Tudo eram améns e aleluias. O que o pastor dizia era acatado na hora. 
Eu não sei se todo mundo falava amém quando era pedido para fazê-lo. Só sei que me fez pensar que na igreja as pessoas tomam mesmo atitude de ovelhas. Pouco importava se o que o pastor estava falando não tinha graça, era ofensivo ou generalizado. As pessoas riam, achavam legal e totalmente verdadeiro. Claro, e tudo era amém. "A mulher tem mentalidade de Barbie. Amém, irmãos!""Amém!!". E percebi que disfarçar a mensagem de palavra de Deus é algo muito, muito perigoso. Faz as pessoas deixar de pensar. Vão atrás do pastor como ovelhinhas, sem parar para pensar se é o não verdade, se é ou não relevante, se é ou não edificante para a vida de cada um. Estamos tão acostumados a entrar na igreja e achar que tudo é Deus, que esquecemos que quem prega a palavra é um ser humano, que, sim, acreditamos esteja sendo usado por Deus, mas que tem suas ideologias, costumes e até preconceitos, todo o qual se evidencia nas suas mensagens.
Não quero aqui falar contra os pastores e a pregação. Que tem pastores safados por ai, tem, assim como tem pastores maravilhosos que vivem suas vidas na certeza de que querem cumprir a vontade de Deus. Aqui não quero falar dos pastores. Quero falar das ovelhas.
Ovelha é um bicho burro, que deve ser guiado em tudo, alimentado, cuidado, que não sabe se virar sozinho. Desde que eu soube como eram as ovelhas me incomodou a comum comparação entre os fiéis e as ovelhas. Mas assistindo esse vídeo percebi como é perfeita a comparação. 
O nosso costume na igreja é ser ovelhas. Deixamos de pensar, de questionar, de analisar. A Bíblia é um livro ao alcance de todos, segundo Lutero, mas ainda achamos que a unica chave de interpretação certa é a do pastor. O que o pastor fala, portanto, deve ser verdade. E ai, mesmo que o pastor tenha falado algo muito questionável, todo mundo grita glórias, aleluias e améns. E a ovelha segue ai, querendo ser levada pelo cabresto, sem parar para pensar no que ouviu.
A igreja deveria ser comparada às ovelhas no sentido do cuidado de Jesus por nós. Era o sentido em que os reis do Antigo Testamento falavam. Tecnicamente eles eram os pastores que cuidavam das ovelhas-povo. Que afinal, não foram pastores e não cuidaram nada mesmo, explorando o povo cada um à sua maneira. E claro, às vezes em nome de Deus (por isso não gosto de Ezequias e sua reforma "justa"). Aliás, a igreja não deveria ser comparada às ovelhas. Elas são bichos estúpidos, enquanto o ser humano que faz parte da igreja tem um cérebro dentro do crânio. As pessoas da igreja deveriam parar para pensar, refletir, questionar. o pastor não é Deus. Sua palavra não é infalível. E não é coisa de sair agora questionando tudo. É simplesmente não ouvir automaticamente, é pensar no que está sendo dito. Assim até a mensagem se aproveita mais, pois prestamos atenção no que está sendo falado. Questionar, se perguntar se é assim mesmo. Na Bíblia há um exemplo disto, os tais bereanos. Eles questionaram Paulo e foram ver o que ele tinha dito na sua Bíblia. Que eles são elogiados porque gostaram do que Paulo falou, e o que teria acontecido se não tivessem concordado, é assunto para outra ocasião. O importante é que eles não aceitaram de primeira o que ele tinha falado. Eles pesquisaram sobre o assunto.
A gente fala de estudar a Bíblia, fala que cada um é sacerdote e tudo o mais. Mas, na prática, a gente repete nos estudos o que aprendeu na doutrinação inicial, a Bíblia é lida com o olhar que é indicado pelo líder. Não paramos para pensar, para refletir sobre o que estamos lendo. Não paramos para ver que em Gênesis não há como estar Jesus, nem para ver que o serpente do jardim não tem inveja de Eva (o texto não menciona tal coisa, que foi invenção de Irineu...), e muito menos se fala no texto que Eva estava merodeando sempre a árvore ou que estava só. A gente vê com olhos de ovelha, e o que o pastor falou é a unica interpretação válida. E assim, a gente se acostuma a não pensar, a gente se acostuma ao automático, e as igrejas se enchem de ovelhas que falam amém a qualquer coisa que seja dita desde um púlpito. E eu não concordo com isso! 

22 de maio de 2010

Da confiança em Deus quando se confiou nos seus filhos

Ultimamente estou muito decepcionada. Quando se procura ajuda, o que se acha são vagos "talvez" ou "vamos ver...". Estar numa situação de dependência e de necessidade é muito ruim. É algo pelo qual cedo ou tarde, alguma vez na vida todos passam. E não é legal. Não é legal se ver impotente, não achar a saída para os problemas, saber que a única opção é um milagre. E ai entra a decepção.

Eu sei que Deus pode tudo. Eu sei que ele é a minha única esperança, o único que de verdade não vai me sair com respostas meia-boca. Eu sei, e vejo, que ele me sustenta dia-a-dia, e que mesmo com os problemas sem resolver posso afrontar um dia após o outro. Mas a decepção não vem de Deus. A decepção vem dos seus filhos.

Não sei se é falta de fé, ou se esperava mais das pessoas, só sei que sim, Deus ajuda, mas eu acho que ele deu capacidade às pessoas de ajudar os seus semelhantes. Uma comunidade que se diz cristã, que se reúne cada domingo para cultuar Deus, deve demonstrar com fatos o que vive cantando e pregando. De nada serve ficar falando aos outros da bondade de Deus se seus próprios filhos não são bondosos, se não estão nem ai para seus próprios "irmãos". A resposta que agora todos dão é "confia em Deus", "ele vai te ajudar".

Tudo bem. Deus me ajuda, sim. Mas Deus deixou aos seus filhos a tarefa de cuidar uns dos outros. O individualismo do mundo está de forma tal presente dentro da igreja que agora é Deus quem deve fazer o trabalho que ele mesmo deu aos seus filhos (isso porque a igreja vive pregando que é preciso se afastar do "mundo"...). Que Deus opere não duvido. O que me deixa sem palavras é a indiferença, e a cara de pau dos seus filhos. Imagina se Jesus tivesse dito ao cego: "meu filho, confia que Deus resolve". Ele mostrou, na prática, ao cego que Deus resolve. Ele não o deixou na mão. Ele é, ou deveria ser, o nosso exemplo de igreja, por isso é que dizemos que somos cristãos. Mas para a igreja é mais fácil dizer "Deus te ajuda", e dar as costas para quem precisa.

Mas agora a igreja se preocupa mais em comprar coisas pro "templo". Em aparecer, fazer campanhas, vender bençãos, excluir membros, julgar uns aos outros. O amor de Deus, o cuidado que Deus demonstrou por meio do seu Filho, a caridade de uns com outros, tudo isso se perdeu. Agora tanto faz se alguém sai da igreja. Ninguém faz perguntas. Pode até morrer que ninguém se importa. Ah, e se por acaso algúm dia a pessoa volta à igreja, simplesmente fingem interesse e perguntam onde esteve todo esse tempo.

Será que Deus quis isso? Será que basta um simples "vai que Deus te ajuda"? Já falava disso Tiago, quando censurava aqueles que diziam aos seus irmãos: vai, que Deus te ama, e não davam pão para matar a fome, nem água para matar a sede. Assim como se demonstra o amor de Deus?
As "obras" da igreja são importantes. Sim, a obra de tal templo, a contrução de tal outro, obras aqui e obras ali. Obras mortas, que deixam de lado as pessoas que precisam, que deixam de lado o ser humano que, técnicamente, é mais importante que qualquer edificação.

Sinceramente, só posso esperar em Deus. Sinceramente, confio mais em pessoas que não conheço, nas quais não tenho esperanças depositadas. Pelo menos elas não vão me decepcionar. Mas aqueles que um dia fingiram que me amavam, esses podem ficar longe. Eu me viro. Deus me ajuda, mesmo que tenha que mover a misericórdia o coração de algúm desconhecido (como já fez, na minha vida, inúmeras vezes), mesmo que tenha que descer do céu a ajuda divina. Seus filhos, que moram na terra, deixaram sobre os ombros dele a carga que ele tinha dado para eles. A igreja, instituição, essa sim, cada vez mais me deixa com o pé atrás. Claro, há grandes excepções. Há sempre pessoas de verdade, pessoas sinceras. Pessoas que se não gostam de algúem falam na cara, e não dão a impressão de ser amiguinhos. E que quando gostam de alguém, estão ai para o que for. Ainda bem que, quase sempre, eles são maioria nas igrejas. Quase sempre.

Que falsidade. Que atuação. Será que a igreja está virando uma grande peça de teatro, onde todos fingem se amar, quando na verdade cada um está preocupado com seu próprio umbigo? Muitos exemplos de iniquidade (no sentido de falta de misericórdia) tenho visto dentro da igreja, já nem deveria me surpreender. Eu sei que a igreja é o conjunto dos pecadores redimidos. Ainda somos pecadores. Sem Deus as nossas reuniões e os nossos ideais perdem o sentido. O problema são essas pessoas que são metidas a santas, que se acham perfeitas, puras e sem mácula. Da minha experiência, esses são os mais perigosos.

E assim, me resta esperar em Deus. Ainda bem tenho Deus, senão já estaria doida. Ainda bem ele me ama, ainda bem ele me entende, ainda bem ele me guia, na minha tolice, na minha crise, nas minhas perguntas, muitas ainda sem resposta. Ainda bem tenho ele para curar minhas mágoas, para me fazer entender que somos todos tão pequenos, tão limitados e imperfeitos, e que, mesmo com raiva, devo compreender aqueles que me decepcionaram. Não é fácil. Não é que vou confiar de novo. Só é aceptação: fazer o quê, eles são assim mesmo...


P.S. O pior são as desculpas fúteis e absolutamente sem noção que certas pessos dão para sua falta de caridade... com um golpe desses melhor o silêncio...

13 de novembro de 2009

Heranças medieváis na Igreja

A Idade Média acabou há muito tempo. Isto é o que pensamos, o que dizemos. Quando pensamos em Idade Média imaginamos um mundo escuro, cheio de pessoas ignorantes, supersticiosas, um mundo onde as leis eram ditadas pela Igreja Católica, e o mundo era "cristão", porque o mundo era Europa.
Em muitos aspectos a Idade Média acabou de verdade. Mas dentro das nossas igrejas insistimos em conservar muitas coisas que desde esta época aprisionam o ser humano, fazendo-o ser, literalmente, uma "ovelha", na mão do seu pastor. Algumas são tão ridículas que se as pessoas parassem para pensar um pouco se revoltariam. Mas geralmente todo mundo se submete. Afinal, é da vontade de Deus que as coisas sejam desta maneira. E aqui é onde começam as heranças medieváis:
1. Qualquer regra de conduta é legitimada na vontade de Deus. Isto era feito pela Igreja Católica na Idade Média, e continua sendo feito por cada pastor em cada igreja. Eu tenho que ler a Bíblia porque é vontade de Deus. Eu não posso ir dançar porque Deus não gosta disso. Assim, além das pessoas ser alienadas e amedrontadas (contra a vontade de Deus, o que podemos fazer?), elas nunca vão a aprender a ser donas dos seus próprios atos, de afrontar as consequências de suas próprias escolhas. Elas vão fazer-não fazer por medo do castigo "divino".
2. A deificação do sacerdote-pastor ou o que seja. Agora são até bispos primazes, apóstolos, títulos que demonstram que o ser humano não saiu da coleira. A maioria de igrejas tem o seu pastor ou líder no patamar dos santos. Seja pelo impedimento de chamá-lo pelo nome, seja pela adoração descarada, as massas estão sendo levadas, ou melhor, já estão acostumadas, a ver no pastor a representação de Deus. Ele é o "servo de Deus", o que lhe dá direito a ser infalível. Sua palavra é lei (mesmo em algumas igrejas batistas, pelo que deveriam ser democráticas, quem faz o que quer é o pastor... e se alguém não gostar pode mesmo é ir embora!!), sua pregação revelação divina, não é possível questioná-lo... afinal, ele é um santo, e sabe mais do que a gente, então o que ele diz está certo. E assim, dia após dia muitas abobrinhas são lançadas sobre os fiéis (nem todos os pastores são ruins, mas há uns que misericórdia! E lastimavelmente eu tenho conhecido muitos dos últimos...). Ahhh, o povo da igreja, somos fiéis, não de Deus, mas do pastor. Olha só, e somos ensinados a obedecer, abaixar a cabeça como boas ovelhinhas, porque, você sabe, Deus não gosta de rebelião...
3. A demonização do outro. Isto vem mesmo desde antes da Idade Média, vem desde o regime sacerdotal pós-exílico, que se abrogou o direito de ser dono da verdade absoluta. Se eu estou certo, o outro está errado, é ou não é? Pois é, e até hoje quem não comparte o que eu penso, quem não aceita a minha verdade, é o pagão, o errado, o filho do diabo... aquele que me contamina se fico por perto dele. E pensar que esta mentalidade legitimou as massacres da colonização, que os povos nativos destas terras foram assassinados em nome de uma verdade absoluta revelada por um "Deus absoluto"... e o cristianismo, desde a sua origem, se fez com sangue! Hoje não matamos, mas desprezamos, discriminamos, olhamos com cara de "tadinho dele vai pro inferno", rejeitamos e às vezes até humilhamos. E dizemos ainda por cima que Cristo amou o mundo... só que, para nós, esse mundo somos nós mesmos! Que lindo, Deus nos ama, o resto que se ferre, eles não acreditam na minha verdade, merecem ser condenados! E depois colocamos a culpa na maldade do mundo pelas injustiças, guerras e ódios, todos fruto de um preconceito que não ve o outro como um igual, mas como um objeto: de conquista (missionária: o outro é objeto de conquista porque deve 'ser convertido', ele não interessa de outro jeito, só esse), de compaixão pela sua "tolice", de desprezo. E ainda estamos dispostos, mesmo disfarçadamente, a queimar em fogueiras quem for diferente de nós.
4. A depreciação da mulher. Depois de 2000 anos, depois da chegada da modernidade, dos direitos, da igualdade, ainda temos o descaro de tratar a mulher como prato de segunda mão. Ela pode, sim, trabalhar na igreja. Mas olha, só pode ser missionária... educadora religiosa... dar aula na EBD... ahhh, e a mulher do pastor é o substituto voluntário (ou forçado?) do pastor. Ela tem que estar onde se precise, não pode deixar de liderar a MCA, os jovens, as crianças, a EBD... ahhh! mas se a mulher ousar pensar em chegar a ser pastora, ou algum outro título semelhante, ai va a igreja medieval, com a Bíblia em mão, para dizer que "Deus não gosta disso". Claro, Deus não gosta se eu não gosto. E o homem é ciumento com seus títulos. Sinceramente eu não sei se poderia ser pastora, se aguentaria tudo o que esse cargo significa. Mas negar à mulher o direito de fazer o que ela quer fazer é a coisa mais retrógrada do mundo.
Além dos cargos dentro da igreja, a mulher ainda é banida, o seu corpo ainda não foi aceito pela sociedade. O curioso é que a negação do corpo da mulher foi acentuado, sim, desde o início da tradição, com o safado de Tertuliano colocando a culpa em nós pelo pecado, e com Agostinho, que para mim não tinha se resolvido totalmente... mas de forma teórica, porque se podem ver gravuras onde os vestidos medievais não tinham nada de discreto, pelo menos em questão de decotes... pero a era vitoriana tampou a mulher de cabeça a pés. O protestantismo tirou de nós uma das poucas coisas que tinhamos.
Engraçado, numa sociedade como a brasileira, onde o que mais se vê são corpos de mulheres nuas ou seminuas... mas elas não são mulheres, elas são objetos, coisas que despertam o desejo masculino, a cobiça masculina, mas nunca o respeito masculino. E por isso, as castigadas somos nós. Isto é, o cara não consegue olhar uma mulher sem respeitar sua integridade, sem controlar sua lascívia, e por isso nós devemos nos cobrir até os olhos. Criticamos a burka mas não aceitamos blusas de alcinha. Claro, os ombros são atraentes, e os homens podem ser seduzidos... fala sério! O homem que aprenda a controlar seu corpo e sua mente, que eu tenho o direito de me vestir como melhor me sinta! (porém, é necessário atender aos limites do vulgar... porque uma coisa é liberdade e outra libertinagem, e andar por ai peladona porque me sinto a vontade também já não da). Quem pensou, num calor de 40 graus, usar camisa de manga porque a alcinha "é do diabo"?
5. Sexo é tabu. Ainda. O corpo é algo que deve ser ocultado, esquecido, ele é mau, nos leva ao pecado... devemos procurar ser anjinhos, escapar da carnalidade deste corpo maldito... corpo que, por incrível que pareça, Deus fez! Deus fez a gente com sexo, Deus fez as nossas formas, as nossas características, o que achamos atraente no outro, o que vemos e o que ocultamos. Se Deus nos fez, porque estamos seguindo ainda Platão, e sua demonização do corpo? (O corpo é o cárcere da alma, ele é mau, a alma boa). Eu prefiro pensar que se Deus nos fez, e como nos fez, foi por algo. Devemos tirar o corpo da sua punição imerecida! Devemos cuidar de nós mesmos, amar-nos, e sobretudo aceitar como somos, homens e mulheres de carne, sujeitos à materia. Se não, Deus teria feito um monte de espectros para povoar o mundo, sem corpo... se ele nos fez com corpo, não é para negá-lo!
6. O conceito de pecado. Este foi a ferramenta mais eficaz para manipulação de massas na Idade Média, porque o sacerdote era o único caminho para obter o perdão dos pecados. Agora dizemos que vivemos sob a graça. Mas que graça é essa que exclui as pessoas da comunhão porque estão "em pecado", um pecado muitas vezes ditado pela cabeça do líder? Já ouvi falar que ir ao cinema era pecado... pera aí, o pecado prescribe? Se era tem que ser agora, ou então nunca foi pecado. Essa questão de pecado ainda não deixou de ser ferramenta de manipulação. Cada um diz que isto ou aquilo é pecado, e as pessoas são ensinadas a viver com medo do próximo respiro, porque podem "pecar", e Deus fica chateado com elas. Eu não sei mais se Deus se importa tanto com as coias que dizem que é pecado fazer. Se for pecado dançar, Deus foi muito injusto comigo me colocando para nascer num pais que se mexe ao ritmo da cumbia, da salsa, do merengue e do vallenato. A dança está no meu sangue, e prefiro "pecar" feliz a reprimir meus passos (que também não são lá a grande coisa) por um pecado que, pelo que tenho percebido, não é mais que herança cultural. Assim como as roupas, herdamos dos colonizadores estadounidenses (no caso dos batistas, pelo menos dos que conheço) uma demonização da cultura na qual eles deviam ser os estranhos, mas da qual fomos extirpados como sem perceber. E assim, dançar é ruim, se vestir conforme ao clima tropical é ruim, dependendo do credo beber é ruim... e se volta à alienação, que não ensina às pessoas que se bebem muito podem estragar o corpo, ou se fumarem demais vão ter câncer de pulmão... é mais fácil dizer que é pecado, que ai o medo da condenação eterna as vai mater longe de tudo o que se queira (o que aqueles, que sabem um pouco mais, querem).
7. A doutrinação automática dos "crentes". Já na Idade Média as pessoas eram ensinadas a aprender sem questionar. O que eles aprendiam, as doutrinas, era revelação de Deus (uma revelaçao manipulada, disfarce de poder político e econômico), e por isso mesmo não era para pensar, era para aceitar. E nas nossas igrejas estamos assim, ainda enfiando "conhecimentos" nas cabeças das ovelhas (tadinhas, muitas vezes "ovelhas" mesmo...), e elas aceitam sem questionar, obedecem sem protestar, acreditam sem pensar. E o que nós sabemos, não, eles não podem saber, não estão preparados. E seguem assim, num mundo de fantasia, sem indagar pelo Deus da vida delas, aceitando a versão de Deus que cada pastor dá, que cada denominação ou liderança dá. Porque, isso sim, cada igreja tem sua própria versão de "Deus". Muitas coisas que se poderiam ensinar, coisas simples, como a formação da Bíblia, como a autoria e a originalidade dos textos sagrados, são ocultados, como se saber que muito provavelmente Jonas nunca foi comido por peixe nenhum abalasse a fé em Deus. Ou, talvez seja por isso mesmo, porque o "Deus" que é ensinado não bate com um Deus recontado em diversas histórias, construido em diversas tradições. O "Deus" que aprendemos é imutável, inefável, imóvel. E o Deus dos hebreus era tudo menos isso. E o nosso Deus, nem temos um, só seguimos o Deus dos outros, o Deus que nos contaram como era. E ai vamos, igreja medieval em um mundo pós-moderno, imperfeito, que cada dia está pior. E ficamos brigando pela nossa verdade, obrigando os outros a nos ouvir (quantas vezes passei nas praças onde sujeitos pregam ou cantam, com todo o fôlego, sem pensar que talvez isso, em lugar de ser testemunho do amor de Deus, é fastídio para quem passa ou vive, trabalha ou fica ali). E distorcemos a verdade do evangelho, a simplicidade de Jesus, em meio de um monte de normas, dogmas (e se você não tomar a Santa Ceia... não vai ficar em comunhão com Deus nem com os outros), regras, proibições.

E depois nos queixamos pelo sucesso obtido pelas "igrejas" manipuladoras que oferecem um Deus-boneco (ele TEM que fazer o que eu quero). Se não ensinamos as pessoas a pensar, a questionar o que se lhes fala, tudo que tenha o título de Deus é sagrado!
Jesus nos disse para amar ao próximo como a nós mesmos. Ele não especificou a religião, cor, sexo ou idade desse próximo. Só disse para amar. E esse amor não é aquele da boca para fora, tão comum e desgastado pelos "crentes" que saem repartindo "amor" por ai, falando a todo mundo que "Deus te ama". Sim, isso é verdade. Mas também é verdade o que disse Tiago, que se digo ao meu irmão que Deus o ama, mas não faço nada para suprir sua necessidade, para mostrar mesmo na pele o amor de Deus, não estou fazendo nada. Falar é, afinal, muito fácil. Cadê as ações? Cadê o compromisso com um Deus que morreu para dar vida ao mundo? Cada vez mais estamos mandando o mundo à morte, omitindo nossa responsabilidade na construção de um futuro, de um mundo melhor. Afinal, este mundo é máu. O homem é uma massa danada, condenado desde o início. Afinal, nosso lugar não é aqui, é lá no céu. Por isso estamos como estamos, porque se deixassemos de olhar tanto para o céu e olhassemos mesmo para quem está do meu lado, enxergariamos as verdadeiras dores, as verdadeiras injustiças, e o sangue ferveria nas veias, e nos levantariamos para fazer alguma coisa. Mas como este mundo não importa...
E ficamos presos, cativos na Idade Média, fechando os olhos e os ouvidos, os nossos e os dos outros, a fim de que a tradição seja continuada, a fim de que a hierarquia seja mantida. A fim de que a massa continue dominada, mansas ovelhinhas no rebanho do "pastor". Ai de nós, que temos tão grande responsabilidade pela ignorância e desespero dos outros!
P.S. Muitos pastores são servos sinceros de Deus. Muitos são ignorantes sinceros. Mas, lastimavelmente, a grande maioria são sinceramente safados, sinceramente políticos, sinceramente manipuladores (talvez minha visão seja muito sinistra, mas tenho experimentado isso na pele...). Queira Deus que surjam mais pessoas que enxerguem o mundo de verdade, o exemplo real que Jesus nos deu, e sigamos verdadeiramente os passos daquele que denunciou as injustiças, enfrentou aqueles que tinham o poder, e que morreu pela verdade!

9 de junho de 2009

Igualdade? Liberdade?

Agora não estou para textos longos. Só queria refletir um pouco sobre a nossa louca sociedade, que se diz livre, se diz democrática, se diz humana. Esta sociedade que se baseia no Direito Universal de que "todos os seres humanos são iguais, tendo os mesmos direitos e deveres..."
Mas será que essa igualdade toda, essa liberdade toda, existem de verdade? Será que a pessoa que caminha na rua, ao ver uma criança jogada em um canto, meio vestida e faminta, se sente de verdade igual a ela? Será que os seus filhos são, para ela, iguais em tudo àquela criança suja?
Duvido muito. O princípio de igualdade, tal como o temos hoje na nossa sociedade, é uma utopia, um disfarce para todas as injustiças descaradas que se cometem por ai. As pessoas não são avaliadas nem tratadas em base ao princípio da igualdade. Elas são julgadas, tratadas, avaliadas, com base na sua posição no mundo, as suas possessões, seu nome. Uma pessoa da rua só é considerada igual por aqueles que estão na sua mesma condição. A igualdade só existe em cada estrato da sociedade. Eu sou igual a quem é da minha mesma condição.
Porém, a sociedade proclama a igualdade universal do ser humano. E nós, seguimos assim, acreditando, fingindo que a sociedade vive o que proclama. A igreja (ela não pode faltar na reflexão, afinal ela se acha diferente da sociedade...) vive no mesmo sonho, a bela utopia da igualdade humana perante Deus. Contudo, a igreja faz distinção entre "justos" e "pecadores", entre santos e perdidos. E a sociedade não sente o agir da igreja.
Jesus veio com a proposta de amar ao próximo como a você mesmo. Outra utopia. Como meu professor falou, se eu amasse ao meu próximo como a mim mesma, não o deixaria passando fome em baixo da ponte. Mas como próximo é aquele que está no meu mesmo estrato social...
Quando deixaremos a hipocrisia? Quando encaremos a sociedade como o que é, totalmente injusta, totalmente desigual, quando não deixemos mais que os outros pensem por nós, e vejamos com nossos olhos a realidade do mundo, talvez haja uma esperança de passar a agir. Claro, é mais cômodo ficar sentado, reclamando do governo e das injustiças (quando elas são cometidas contra nós), olhando as pessoas sofrer sem sequer mexer o mindinho. É mais fácil se escudar em Deus como o ser que nos levará ao céu. É melhor pensar que Jesus veio ao mundo só por nós. Quem não é igual a mim nem sequer ocupa um lugar nos meus pensamentos...
E falando de liberdade, esta sociedade não é livre. As pessoas não são livres. Desde crianças, são treinadas para não opor resistência ao sistema opressor sob o qual aprendem a viver, cômodas e inativas. Desde sempre há o controle do pensamento. Os meios de comunicação, e isto não é novidade, são escolas de conformismo, ilusões vendidas ao povo nas novelas, nos comerciais que insistem em que comprar certa coisa, se inscrever em tal outra é o caminho da felicidade. E a igreja, em lugar de ser um ente libertador nesta sociedade louca, é mais um ente opressor, alienante, que impede às pessoas de pensar, as coloca sob o medo eterno do juízo de Deus, do juízo do "irmão, da exclusão (pelo menos nas igrejas batistas o membro pode ser excluído se cometer algum "pecado mortal", geralmente engravidar [enquanto isso muitos hipócritas, mentirosos e caluniadores assistem tranqüilamente os cultos...]).
Onde estão as igrejas filhas de Deus, proclamadoras da mensagem de igualdade e liberdade de Jesus Cristo? Estão ocultas em baixo de tantas doutrinas, de tantos ritos vazios, de tantas liturgias estáticas... Onde está o povo de Deus que quer mudar esta sociedade? Está reclamando as bençãos de Deus, o qual tem a OBRIGAÇÃO de fazer milagres e encher de dinheiro a todas as pessoas que peçam, e que assistam aos cultos de certas igrejas... Onde estamos, como cristãos, e sobretudo como seres humanos, neste mundo utópico de falsa igualdade, falsa liberdade, falsa humanidade?

3 de junho de 2009

"Ainda Bem Eu Vou Morar no Céu..."

Essa frase faz parte de um cântico que ouvi alguém cantar. Não o conheço muito bem, mas a frase é significativa. Ela diz tudo o que os cristãos aspiram. Ir morar no céu.

Em si esse desejo é normal. Ir morar com Deus é uma esperança válida. O ruim é que a igreja se centra nisso, e se esquece que ela vive na terra. Tanto se esquece que passa a ver a terra, os outros seres humanos que não assistem à igreja, como "o mundo", uma espécie de demônio contra o qual eles devem lutar. Os que estão "no mundo" são pecadores e vão para o inferno. O mundo é mau. O único que importa é a esperança de ir morar no céu. Desta forma, os cristãos estão se esquecendo do próximo. Se eles são parte do mundo mau, então não é conveniente nos juntar a eles. Desta forma a igreja se está isolando, pensando que ela é superior aos que estão "no mundo".

Ainda bem que vou morar no céu. O mundo pode se lascar, meu vizinho pode morrer de fome que não estou nem ai. O importante afinal não é esta vida, mas a vida futura, no céu.

Para mim esta cosmovisão está errada. Com esta posição a igreja se fecha em si mesma, esquecendo da sua missão de ir ao mundo. Jesus não nos disse que nós eramos uma classe aparte de seres humanos. O nosso objetivo no mundo não é ir ao culto nos domingos e nos cumprimentar com os nossos irmãos por sermos tão santos, enquanto quem não vai na igreja é um pecador condenado. A igreja foi constituída para morar na terra. O céu não pode substituir a esperança de fazer diferença no mundo.

Agora bem, para os crentes fazer diferença no mundo geralmente é não fumar, não beber, não fazer isto e deixar de fazer aquilo. Mas para mim a diferença não se limita a fazer ou não coisas. A diferença está na atitude que os cristãos têm com as outras pessoas. Eu faço a diferença quando me importo com as pessoas ao meu redor, mesmo se elas não vão à igreja. Mesmo se elas não são cristãs. O amor de Cristo se demonstra por meio das ações. Mas se a igreja só se importa com ir morar no céu, não liga para o outro, e demonstrar o amor de Cristo a quem for deixa de ser importante. O importante é o sentimento egoísta de que "eu estou salvo, vou para o céu". E assim, a igreja egoísta vai fechada para o céu.

Será que isto mesmo é o que Deus espera de nós? Eu acho que não. Jesus veio ao mundo para demonstrar o amor de Deus aos homens, aqueles pecadores que não iam ao Templo, e que por isso eram considerados perdidos. O esquema parece familiar. Os mesmos padrões de "santidade" da época de Jesus são aplicados por aqueles que se dizem seus filhos. Aqueles para os quais o mundo, as pessoas e a vida terrena não importam, porque o importante é a vida futura, quando Jesus venha.

Jesus veio fazer diferença enquanto estava vivo, caminhando pelas ruas sujas da Galiléia, no meio das pessoas que precisavam de atenção e amor, aquelas que eram esquecidas pela sua sociedade, marcadas com o selo do "pecado", seja por doença, por gênero (mulheres eram nada), por posição social. Quem não cumpria os ritos era pecador. Agora quem não está dentro da igreja é pecador. Como se quem está dentro da igreja fosse perfeito! Quase quase estamos dizendo que é um mérito ir ao céu.

Porém, estamos esquecendo a vida na terra, estamos esquecendo de olhar para nosso mestre, seguir seus passos, ouvir suas palavras. O nosso trabalho é aqui. No tão temido e odiado "mundo". As pessoas ao nosso redor precisam de ver uma igreja em ação, aberta para eles, que não só procure "salvar almas", mas melhorar as condições de vida de quem precisa, enquanto está aqui na terra. O "mundo" precisa ver uma mudança, uma que venha de nós. Temos que mudar nossa visão. Nosso alvo não deve ser o céu, devem ser as pessoas, já que estas são o alvo de Jesus. Nós estamos querendo fugir da nossa responsabilidade. Claro, o mais cómodo é deixar as coisas como estão. Como elas não importam, como quem está no mundo está perdido mesmo... Como o importante é ir ao céu...

6 de fevereiro de 2009

O que o Senhor Requer

Miquéias 6,6-8
Na época do profeta Miquéias o povo de Deus tinha se afastado totalmente dele. (ver Mq. 7,2-7) A maldade e as injustiças eram cada vez maiores. O sistema religioso israelense também tinha se corrompido, e as pessoas se lembravam de Deus (YHWH) só uma vez por ano, quando iam oferecer sacrifícios no Templo de Jerusalém. É contra esta situação que o profeta reclama, já que as pessoas achavam que as oferendas e os sacrifícios eram suficientes para agradar a Deus, sem importar as maldades que cometiam no resto do ano. Para eles não era necessário o compromisso com Deus.

Depois da época do exílio o povo judeu tornou-se o oposto do que tinha sido na época de Miquéias. Eles começaram a
dar uma excessiva importância ao cumprimento da lei. As pessoas que não cumpriam ao pé da letra todos os mandamentos de Moisés, e outros que foram se agregando às leis, eram considerados pecadores e desprezados. Porém, isto não foi bom (ver Lucas 18,9-14): Se antes achavam que os sacrifícios eram suficientes para agradar a Deus, agora achavam que o cumprimento literal das leis (sem pensar no objetivo das leis) era suficiente para agradá-lo. Eles nem sequer pensavam em cumprir as leis por amor a Deus, mas para exaltação deles mesmos.
O povo não aprendeu a lição.

Muitas vezes nós somos como esse povo. Muitas vezes perdemos o foco da nossa vida cristã, o nosso amor a Deus, para limitar-nos ao cumprimento de ritos e leis. Deus não quer só sacrifícios, ele não liga para as demonstrações externas. O que é que verdadeiramente Deus requer de nós? O profeta Miquéias nos da a resposta: (ver Mq. 6,8) Também Oséias tinha dito algo assim (ver Os. 6,6). Para Deus o mais importante é um coração humilde. Se nós não somos humildes diante dele, por mais que possamos ser “justos” diante dos homens, diante dele não seremos aprovados, assim como o fariseu não o foi.

Nós devemos nos lembrar qual é a verdadeira razão para sermos cristãos: não é porque nascemos na igreja ou somos membros de uma há muito tempo, não é porque é legal ir aos cultos ou porque somos tão bonzinhos, mas é porque Deus um dia se compadeceu de nós, pecadores, e nos salvou. Lembrarmos do amor de Deus é suficiente para sempre ter uma atitude de humildade ante o nosso Deus e entre os nossos irmãos.

Ele nos chama ser justos. Será que o fariseu foi justo, menosprezando ao publicano no seu coração? Será que somos justos só por jejuar ou dar o dízimo? Se observarmos o contexto social de Miquéias (ver. Mq. 7,2-7) podemos ver que a verdadeira justiça é ter compaixão com os outros. É exercitar o amor aos nossos irmãos, aos nossos vizinhos, e àquelas pessoas que não conhecem de Deus e que estão morrendo sem ele. Muitas vezes fazemos uma separação entre as pessoas “do mundo” e nós, como se eles foss
em algo perdido, limitando-nos a criticá-los. Esquecemos que Jesus veio a salvar pessoas como eles, que são IGUAIS A NÓS, e que ele nos deu como tarefa falar a eles do amor de Deus. Estamos como os fariseus, que achavam quem não cumpria as leis pecador, mas não faziam nada por essa pessoa.

O evangelista nos diz que foi o publicano quem saiu justificado por Deus depois da sua oração, em lugar do fariseu. O que o publicano fez? Ele foi HUMILDE. Ele não veio diante de Deus com uma atitude de auto-suficiência, mas com humildade no coração.

O povo de Deus não mudou o seu coração, apesar de ter ouvido as palavras de profetas como Miquéias e Oséias. O seu coração permaneceu duro até nos tempos de Jesus, até mesmo ouvindo o que ele pregava e vendo o que ele fazia.
Nós, como cristãos, devemos lembrar sempre do que Deus realmente quer de nós, pois é essa a nossa meta como crentes. Deus se importa mais com as pessoas e menos com os ritos.
Que a nossa vida não seja uma experiência vazia, QUE NOSSO CORAÇÃO NÃO SEJA DURO, QUE NÃO ESQUEÇAMOS NUNCA QUEM SOMOS DIANTE DE DEUS E PORQUE ESTAMOS AQUI. Deus requer de nós humildade, Deus requer de nós amor, para com ele e para com os outros. Ele nos chamou a ser servos. O mundo precisa de Deus. O que estamos fazendo para que ele seja conhecido?

Viviana Carolina Mendez Rocha